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  • Matheus Mans

Crítica: 'Alice e o Prefeito' belisca boas questões, mas não se aprofunda


A ideia inicial de Alice e o Prefeito, filme dirigido e roteirizado por Nicolas Pariser (Le grand jeu), é interessante -- para dizer o mínimo. Afinal, o longa-metragem logo de cara se debruça sobre a história de Alice (Anaïs Demoustier), uma pedagoga que é convocada para trabalhar na prefeitura de Lyon. O motivo? Precisa instigar o prefeito Paul (Fabrice Luchini) a pensar mais.


A ideia do político, um medalhão do partido socialista francês, é tirá-lo de sua zona de conforto. Alice, que tem experiência com a filosofia depois de dar aulas por um período sobre o tema, precisa instigar Paul a se mexer, a ir além da caixinha, a ser provocado. Logo ela começa a trazer temas sensíveis para ele e, rapidamente, a subir no conceito desse tradicional político.


Pariser, que não tem muito experiência com longas, começa bem essa jornada. Inclui pensamentos e ensinamentos de grandes pensadores e filósofos em conversas que fluem bem entre os dois personagens. O espectador, passível nessa troca de conhecimento e provocações invisíveis entre os dois, vai sendo levado em um caminho de pensamento interessante.

Muito disso se deve, também, ao bom desempenho dos dois atores. Demoustier (O Mundo de Gloria) está bem, transitando entre a segurança de seu posicionamento e a insegurança que o ambiente lhe confere -- em alguns momentos, até com ecos de The Assistant. Enquanto isso, Luchini (Dentro da Casa) encaixa no tipo de político maduro, já confortável, ávido por mudanças.


No entanto, logo o roteiro de Pariser se perde. Afinal, começam a entrar elementos que atrapalham o andamento da trama como algo de teor filosófico e político. Um relacionamento sem fundamento de Alice atravanca lá pra terça parte do longa, enquanto um momento de questionamento existencialista surge sem qualquer propósito mais para o final.


As conversas e embates entre ela e o prefeito são trocados pela rotina da prefeitura, ficando ainda mais perto do já citado The Assistant. Não há inovação ou criatividade nisso, deixando o filme sem foco e, principalmente, sem qualquer aprofundamento. Parece que Pariser tentou abraçar o mundo e todos os públicos possíveis, mas bateu de frente com o caos narrativo.


Alice e o Prefeito, vale dizer, não é ruim -- os dois atores centrais estão bem, enquanto também há momentos genuinamente verdadeiros na trama. Mas parece que o realizador, do alto de sua pouca experiência, não conseguiu (ou não teve coragem) de realmente ir além. Ficou naufragado em uma mesmice chata, apesar de todas as possibilidades que se abrem em seu começo.

#Crítica #Cinema #Filme

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