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  • Matheus Mans

Crítica: 'Amado' até tenta, mas no final é só a violência pela violência


Obviamente, cineasta algum (de respeito, pelo menos) vai fazer um filme para dizer com todas as palavras que a violência se combate com a violência. Que bandido bom é bandido morto. Não tem lógica, não tem conjuntura social, não tem nada. Sei, assim, que esse não era o objetivo de Amado, filme que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 9, com direção de Edu Felistoque e Erik de Castro. No entanto, objetivo e resultado são coisas distintas e, aqui, não são a mesma coisa.


Felistoque e Castro, claramente, queriam discutir a violência que existe intrinsicamente na vida de um policial e, acima de tudo, discutir o poder das milícias e da corrupção policial. Tudo bem. No entanto, rapidamente, Amado perde o fio da meada. Com a história do policial que leva título ao filme, e interpretado por Sérgio Menezes, vamos acompanhando como o sistema prejudica um policial incorruptível e que se recusa a entrar no sistema que todos seus colegas entraram.


A violência surge por todos os lados de Amado e, como um Travis Bickle, vai perdendo o controle. Não consegue mais conter sua violência. Nada de diferente de um filme como John Wick e afins, certo? Errado. Enquanto essas produções flertam o tempo todo com a fantasia, Amado abraça o realismo -- afinal, é inspirado em uma história real. O personagem principal reage à violência com mais violência. Bala contra bala, tiro contra tiro, força bruta vs. força bruta.

Felistoque e Castro mostram que tem pouca fé no sistema -- e isso é justo. Como mostrou Tropa de Elite 2, o buraco é mais embaixo. É difícil se rebelar e sair com êxito. Mais: é difícil promover uma revolta e sair sequer vivo. Só que essa violência desenfreada ser tão exaltada, em um país em que as ruas são celeiros de morte, tanto para policiais quanto para a população, é difícil engolir um filme que banaliza tanto a violência como uma única saída à problemas estruturais.


Amado, sem dúvida alguma, seria mais interessante se a direção e roteiro tivessem flertado desde o início com a ficção, assim como fez John Wick ou qualquer filme de ação com Stallone e companhia. Abrace o absurdo, quebre algumas regras, brinque mais. Aqui, com tudo tão sério e realista, fica difícil embarcar na história. Em tempos de Bolsonaro, não dá nem para chegar perto de elogiar um filme que sedimenta a ideia de que bandido bom é bandido morto.


Pelo menos se salva aqui a criação estética da coisa, com boas referências musicais, trilha sonora interessante e, sobretudo, uma fotografia que sabe brincar com a cena e causar até mesmo aflição em alguns momentos. Só que, de novo, não salva a sensação de tristeza pela glorificação de Amado -- um homem coberto de violência e que só gera violência ao seu redor. Pior ainda quando termina o filme, exaltando que Amado existe. Não dá. Passou da linha.

 

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