• Matheus Mans

Crítica: 'Amante por um Dia' encerra interessante trilogia de Garrel


Philippe Garrel começou a fazer cinema lá pela década de 1960, quando o cinema francês estava entrando de cabeça no movimento da nouvelle vague. Hoje, o estilo cinematográfico já ficou para trás, mas Garrel -- que ficou muito conhecido no Brasil por conta de seu filho, o astro Louis -- continua apostando firme em seu estilo muito único de fazer cinema. E agora, mais um bom filme entra para sua filmografia ressaltando aspectos originais e clássicos do cinema europeu.

Amante por um Dia tem uma premissa curiosa: a jovem Jeanne (Esther Garrel) acaba de ver seu noivado chegar ao fim, sendo que ainda é apaixonado por seu ex-companheiro. À beira do colapso, ela decide buscar abrigo na casa de seu pai, Gilles (Eric Caravaca), um professor que acaba de engatar um relacionamento com uma aluna que tem a mesma idade de Jeanne. A partir daí, as duas jovens se aproximam, mas logo os primeiros problemas já começam a aparecer.

O longa-metragem é a terceira parte de uma trilogia não-intencional iniciada por O Ciúme e, depois, continuada por À Sombra de Duas Mulheres, sempre falando sobre relacionamentos amorosos e suas consequências. A estética de Garrel está presente em toda a película: a fotografia é em preto-e-branco, se unindo à um granulado intencional. O posicionamento da câmera é pouco usual, deixando alguns personagens de fora. A trilha e a edição também remetem à nouvelle.

Ou seja: Philippe Garrel clássico, do jeito que a legião de fãs de seu trabalho sempre quer e procura. Já na história, o cineasta francês usa de recursos mais populares, investindo em uma quase confusão romântica. Todos ali em cena -- a filha, a aluna e o pai -- tentam achar seu espaço na sociedade e compreender o amor. Cada um, de sua forma, sofre um pouco com o que lhe é entregue no campo pessoal. É uma união da busca pela liberdade e pelo amor desenfreado.

Garrel, então, mais do que brincar com a situação incômoda no apartamento da pai, faz uma verdadeira análise por “trás das linhas” sobre relacionamentos modernos. Quem ajuda nisso são os atores. Esther, filha do diretor, está muito bem como uma jovem que tenta -- e quer -- encontrar seu lugar no mundo. Caravaca faz um pai perdido, que ainda não sabe como amar, enquanto a atriz que faz a aluna (Louise Chevillotte) é um pouco mais limitada, mas funciona.

O grande problema do filme, que constrói bem essa análise apressada dos dias atuais, é o final corrido. Parece que Garrel concluiu o filme de qualquer jeito na sala de edição para que ele pudesse ficar os 75 minutos que marcaram sua trilogia. Parece que faltam cenas para dar união à história final. Uma pena. Ainda assim, porém, Amante por um Dia é um bom e necessário fecho dessa trilogia não-intencional que só mostra como Garrel ainda é um cineasta atual, atuante e necessário.

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