• Matheus Mans

Crítica: 'Amazônia Groove' é mergulho na música regional brasileira


Quantas músicas existem ao longo do Rio Amazonas? Muitos podem pensar apenas nas canções indígenas ou, então, em músicas extremamente generalistas e estereotipadas. No entanto, há muito mais notas, acordes e gêneros trafegando pelas águas doces desse rio do que alguém pode imaginar. É esse o registro do belíssimo documentário Amazônia Groove, que abre a exibição da mostra Ciranda de Filmes e que chega às salas de exibição no Brasil na quinta-feira, 6 de junho, no Espaço Itaú Augusta.

Dirigido por Bruno Murtinho, que vem do mercado de videoclipes, o longa-metragem faz um passeio pelas águas do Rio Amazonas, independente do nome que receba ao longo de seu extenso percurso. A ideia é retratar os versos que embalam o próprio ritmo fluvial e vice-e-versa. Afinal fica claro como tudo ali é uma troca entre as forças dessa pungente natureza. A batida do rio influencia nas cordas tensionadas no violão, e tudo faz parte de uma imensa troca entre ambiente e partitura. Muitas vezes, literalmente.

O que impressiona, logo numa primeira vista, é o visual apurado do documentário. Na primeira cena, por exemplo, Murtinho se vale de um drone para navegar nas áreas do Rio Amazonas, calmamente, como se fosse um barquinho. Aos poucos, conforme o aparelho mostra seu poder de voo, a imagem vai ficando mais e mais impressionante e a grandiosidade daquele ambiente ataca. É a deixa para o cineasta, junto com o roteirista Leonardo Gudel, mostrar a diversidade imensa que existe na área verde.

Os entrevistas são explorados ao longo dos 85 minutos de projeção de maneira fluída, numa edição esperta do próprio Murtinho. Dona Onete, Sebastião Tapajós, Mestre Damasceno, Manoel Cordeiro, Albery Albuquerque, dentre outros, vão mostrando todo o diálogo entre experiência, notas musicais e a região. A diversidade impressiona. São ritmos marcados pelo violão, outros por sintetizadores, alguns apenas baseados na voz para cantar no populoso mercado do Ver-o-Peso. É um retrato plural de toda a região.

Murtinho não tem pressa na condução do documentário e, assim como em Uma Noite em 67 e no delicioso Palavra (En)Cantada, o público tem tempo para mergulhar no que é mostrado. Tudo muito rico, repleto de informações, feito sob medida para o público se identificar, pelo menos, com uma das histórias. Algumas delas, aliás, despertam gargalhadas sincera de simpatia ou risos delicados por conta da beleza das histórias.

Amazônia Groove, então, é um documentário-experiência. Afinal, permite trocas entre público, filme, músicos, música e natureza. Esses cinco elementos se tangenciam e mostram potencial quando unidos. Por isso, prepare-se para sair da sala de cinema com vontade de dançar, pular e colocar algumas das músicas escutadas no seu Spotify -- principalmente de Dona Onete, uma cantora de boleros notadamente dançante e alegre. É, assim, um filme que vai além da exibição. Fica pro registro histórico e para a experiência individual de cada um com a Amazônia e música. E isso é muito importante.