• Matheus Mans

Crítica: 'Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald' é diversão saturada


O longa-metragem Animais Fantásticos e Onde Habitam chegou rodeado de suspeições e receio dos fãs. Afinal, a trama que ampliava o universo mágico de Harry Potter era baseada num livreto publicado por J. K. Rowling em 2001 que não tinha quase nada de história. Mas surpreendeu: dirigido por David Yates (dos quatro últimos filmes da franquia Harry Potter), roteirizado pela própria Rowling e estrelado por Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa), o filme acertou ao equalizar diversão, magia e "escuridão".

No novo capítulo da saga, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, esse equilíbrio acabou caindo por terra. Na história, o público volta a acompanhar a jornada do amante de criaturas mágicas Newt Scamander (Eddie Redmayne). Desta vez, por indicação de Alvo Dumbledore (Jude Law), ele vai para Paris, na França, na tentativa de resgatar o garoto Credence (Ezra Miller) e impedir que o bruxo Grindelwald (Johnny Depp) leve-o para o lado sombrio da magia. Uma nova luta de bem versus mal.

No primeiro filme da saga, há também uma batalha maniqueísta -- com Scamander e o personagem de Colin Farrel. É um elemento narrativo incrustado na alma dessa franquia desde as grandiosas batalhas mágicas entre Harry Potter e Voldermort. No entanto, o tempero da diversão, do humor e da aventura quebravam esse ar de mesmice e ajudava a dar um novo frescor para a trama some. Por questões de roteiro e de direção, a leveza da saga se esvai e o longa-metragem adquire o mesmo tom dos últimos HPs.

Redmayne, por exemplo, sai da posição de protagonista absoluto e divide seu tempo de tela com Depp (Piratas do Caribe), Law (Rei Arthur), Zoë Kravitz (Kin), Ezra Miller (Precisamos Falar sobre Kevin) e William Nadylam (O Caso SK1). Além da presença dos já costumeiros Dan Fogler (The Walking Dead), Alison Sudol (Transparent) e Katherine Waterston (Alien: Convenant), que formavam um quarteto forte, coeso e equilibrado no último filme junto com a jornada de Scamander. São muitas histórias, muitos personagens e muitas possibilidades que não se equilibram bem como anteriormente.

Grande parte do elenco, aliás, nem consegue se destacar. Redmayne continua apenas com sua pose de menino tímido, Depp com seus trejeitos de Jack Sparrow que não são curados e Fogler com seu humor histriônico. Law até quebra isso com uma classe e sutileza inerente de suas interpretações, mas não vai além. Não há grandes momentos em tela para a maioria deles. Quando há, não é por conta da trama -- uma das sequências mais lindas do filme é de Newt Scamander montado num dragão chinês.

Rowling, aliás, volta ao que lhe é costumeiro: entrelaçar muitas tramas sem, necessariamente, as resolver. Ela é uma grande escritora de livros e essa característica funciona bem em suas obras. É criada, afinal, a expectativa com o que vem a seguir, além de um maior espaço para a construção e desenvolvimento de seus personagens. Já no cinema, esse ponto é problemático. Não dá pra apostar que tudo vá se resolver em filmes futuros. O que se pode fazer é criar uma expectativa aqui e outra ali, uma dúvida cá e acolá -- como Os Últimos Jedi, filme de transição de Star Wars, fez bem.

No final, o roteiro fica inchado, sem identidade própria e um tanto quanto arrastado. É levemente decepcionante, ao final da trama, ver o porquê de tudo aquilo estar sendo contado e, principalmente, o porquê daquilo tudo ter levado duas horas e quinze até seu ápice. O filme tem tanta história, tanta subtrama e tanto personagem que não dá pra manter o controle de quem é mãe de quem, quem é irmão de quem, quem é filho de quem. Não é à toa que Yates interrompe o filme pra mostrar uma árvore genealógica. Acho que nem ele sabia mais o que tava contando ali e para quem estava contando.

No entanto, há de se destacar que Animais Fantásticos continua com alguns pontos muito positivos e que podem agradar os fãs e parte do público em geral. O primeiro é a simpatia genuína que as criaturas causam. Ainda que com menos espaço em tela, bichos como Pelúcio e o Tronquilho divertem muito e criam conexão com o público -- coisa que o filme perdeu muito em sua narrativa. Além disso, Rowling se mostrou ótima para reviravoltas. Há uma revelação, novamente no minuto final, que vai deixar muita gente em polvorosa. Ainda que ela não faça sentido se parar para pensar um pouco.

Além, é claro, do excepcional trabalho de efeitos especiais que coloca a produção em pé de igualdade com Jogador Número 1, Primeiro Homem e Pantera Negra na briga pela estatueta da categoria do Oscar. E uma dica: tentem ver na maior tela e melhor cinema.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é um filme mais apático, sombrio e sem identidade do que seu antecessor. A história, cheia de personagens e tramas, também faz com que a identificação do público, tão essencial em toda a saga Harry Potter, tenha um declínio substancial. Saem de cena a aventura, a diversão e o descompromisso para entrar algo mais sombrio, político e complexo. No entanto, os tais animais fantásticos -- que estão no título, mas perderam o protagonismo -- continuam sendo uma diversão ímpar. E é delicioso, sem dúvidas, voltar à Hogwarts. Que os próximos filmes se saiam melhor. A torcida é grande

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