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  • Matheus Mans

Crítica: 'Annette' esvazia tanto sua linguagem que se torna desinteressante


O longa-metragem Annette, exibido no Festival de Cannes e comprado para distribuição no Brasil pela MUBI, é uma das caras do 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Afinal, a união de Adam Driver (História de um Casamento), Marion Cotillard (Piaf) e o cineasta Leos Carax (Holy Motors) em um musical em longa-metragem é inusitado, inesperado, até bizarro.


No entanto, que decepção. Que filme vazio! Roteirizado em parceria com os Sparks, músicos que tiveram a ideia das músicas e procuraram Carax para desenvolver o longa-metragem, Annette conta a história de Henry (Driver), um comediante famoso (consideravelmente parecido com Bo Burnham) e que engata um romance de interesse público com uma cantora de ópera (Cotillard).


Tudo vai bem, com músicas e declarações de amor enquanto Henry faz sexo oral na personagem de Cotillard, até o nascimento da filha. Annette. Representada por uma marionete de aspecto robótico no longa-metragem, a criança se torna um ponto de ruptura no casamento e na relação de Henry com Ann. Os dois se estranham, enquanto Henry vê sua carreira desabar.


A partir disso, Carax vai construído um filme com música atrás de música mas que, na essência, é um antimusical. Isso mesmo. Afinal, pense comigo: o que caracteriza um musical como Cantando na Chuva, La La Land e afins? É a cor, a alegria, o exagero, a explosão de cores e de absurdos. Aqui, o cineasta de Holy Motors leva isso para o extremo ou vai no sentido contrário.


De um lado, há o exagero com o completo rompimento com a realidade. Os cenário são artificiais, como o mar que não esconde os pixels no lugar das gotas do oceano, ou das músicas que surgem em toda fala, todo posicionamento, todo diálogo. Do outro lado, há a contestação: a predominância de uma única cor, a indefinição entre canto e fala, o visual pouco apurado.

No entanto, a principal contravenção por aqui é como a música não é um marco narrativo alegre e positivo, mas sim um elemento de desgraça, de aproveitamento, de como ela não traz preenchimento emocional aos personagens e suas vidas. Henry cai em desgraça ao mesmo passo que a esposa faz sucesso, por exemplo. É, assim, antimusical. A música é apenas o fim.


E isso tudo é bem legal, interessante. O problema é o caminho usado para essa construção. Carax, bem menos autoral por aqui com o roteiro dividido com os Spark, recai em decisões cansativas, mornas, que só deixam tudo muito sonolento. Tudo é muito moroso, pouco empolgante (olha o antimusical aí novamente!). É uma vontade desesperada de largar no meio.


As decisões definitivamente não são as melhores narrativamente pensando. Acredito que isso é sintoma dessa contestação geral do longa, mas pera lá: um filme precisa ser tão chato para ser controverso, contestatório, provocativo? Haveria outros meios, sem dúvida. Carax já mostrou a sua face contestatória antes, como em Holy Motors. Aqui, ficou refém de um roteiro sem vida.


A boa atuação de Driver, a entrega de Cotillard e alguns bons detalhes, como a mancha no rosto ou até mesmo o desenvolvimento de Annette, não salvam o longa-metragem de ser um fiasco. Acaba não tendo nada para contar, além desse propósito de ser um antimusical, uma provocação. Fica apenas na pretensão, não na realização. E aí, no final, Annette é um antifilme.



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