• Matheus Mans

Crítica: 'As Invisíveis' dá voz para quem vive às margens


Alardeado como uma das comédias de maior sucesso na França, o longa-metragem As Invisíveis dá sinais de tem um humor escrachado que lembra o recente Mulheres Armadas, Homens na Lata. O trailer, o pôster, o material de divulgação. Tudo dá essa ideia. Mas não poderia ser mais diferente: As Invisíveis é um filme poderoso sobre quem vive às margens.


Dirigido por Louis-Julien Petit (Discount), que apresenta uma surpreendente sensibilidade feminina, o longa-metragem conta a história de um abrigo diurno para mulheres na França. Lá, passam pessoas que não estão se encontrando mais em suas vidas e que precisam de apoio -- seja ele emocional, físico, profissional. É neste lugar, em resumo, que elas se encontram.


A problemática da história surge quando o abrigo recebe a ordem de ser fechado. Nesse momento, as responsáveis Audrey (Audrey Lamy) e Manu (Corinne Masiero) entram em parafuso. As abrigadas não querem ir para o centro de acolhimento mais próximo, por também abrigar homens. E, assim, cria-se a situação: será que devem simplesmente abandoná-las?


A partir disso, Petit, que também assina o roteiro, traça a jornada dessas duas responsáveis pelo lugar e, ao mesmo tempo, coloca as desabrigadas cruzando seus caminhos. É interessante como o cineasta/roteirista cria a personalidade de cada uma delas, tornando marcante a forma que são conduzidas na história. Destaque pra sensacional Chantal (Adolpha Van Meerhaeghe).


Mais do que causar riso, a história de As Invisíveis emociona e faz pensar. A jornada daquelas mulheres é dolorosamente real e é interessante perceber o dilema entre ajudar e carregar essas pessoas no colo. Será que isso poda a liberdade de cada uma? Será que isso as impede, mesmo que inconscientemente, de ir atrás de seus objetivos e de trilhar um caminho próprio?

As questões levantadas por Petit são pertinentes e fazem sentido dentro do que a história se propõe. É difícil sair do filme sem carregar alguns pensamentos consigo próprio sobre o tema.


Mas, infelizmente, o roteiro de Petit não dá conta de tantas histórias maravilhosas. O espectador quer saber mais sobre aquelas mulheres, sobre suas vidas, seus destinos, suas jornadas. Quer detalhes de Chantal, quer entender melhor Mimi, Lady Di e Brigitte. No entanto, não para isso ser feito em 100 minutos. E o roteiro, forçando tantas histórias, acaba ficando esganado.


Dessa maneira, muitas personagens ficam à deriva. Como é o caso da rebelde vivida por Sarah Suco ou pela revoltada -- e agressiva -- Déborah Lukumuena. O que houve com elas?


A emoção e a verdade daquelas histórias continuam ali. Mas falta o ritmo, o desenvolvimento de personagens, o aprofundamento. Claro: o protagonista, aqui, não são essas mulheres. É o abrigo em si, a instituição, o cuidado. Mas acaba se tornando um pouco frustrante não poder ir além. E, pior de tudo, não saber como ir além. Saber quem é cada uma daquelas mulheres no filme.


A indicação, porém, é resistente: vale a pena conhecer As Invisíveis e entrar na vida de cada uma dessas personagens. Vivê-las, entendê-las, escutá-las. Afinal, apesar do filme se passar na França, há um diálogo franco com a realidade de qualquer cidade brasileira, com pessoas que vivem à margem. Escute-as e, quem sabe, você vai entender a pessoa que está na sua esquina.


P.S.: A vida de Chantal, contada no longa-metragem, é a história real da atriz Adolpha Van Meerhaeghe. Recomendo este excelente artigo da L'Obs para saber mais sobre sua história.

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