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  • Matheus Mans

Crítica: 'Bagdá Vive em Mim' tem história potente e realização mediana


O que acontece quando saímos de um país, da nossa terra, da nossa casa? O cenário externo muda, as pessoas mudam. Mas nós continuamos os mesmos, ainda que com interações diferentes, rotinas distintas. No final das contas, levamos um pedaço da nossa origem para onde quer que estejamos. E é justamente sobre isso que, em partes, fala Bagdá Vive em Mim.


Dirigido por Samir (sim, apenas um único nome), o longa-metragem se vale, como Bistrô Romantique, do cenário de um local de convívio social para costurar a trama. Aqui, ao invés de um restaurante, porém, temos um café no coração de Londres. Lá, pessoas vindas do Iraque reencontram os seus, com pouquíssimo ou nenhum juízo de causa do que eles fazem hoje.


Tem Taufiq, um escritor fracassado que precisa trabalhar como guarda noturno para pagar as contas. Tem ainda Amal, uma arquiteta se escondendo do marido e que, impossibilitada de exercer a profissão no novo país, acaba trabalhando como garçonete nesse café iraquiano. Por fim, tem o jovem Muhannad, gay e especialista em tecnologia que, enfim, encontra liberdade.


No entanto, é claro, Samir coloca algum tipo de fogo nessa história tripla: o ex-marido de Amal ressurge, extremistas muçulmanos começam a ficar desgostosos com a movimentação do café e o resto é história. Lembra um pouco a essência do genial O Paraíso Deve Ser Aqui, sobre a Palestina. Esses personagens fogem de problemas, mas muita coisa acaba reencontrando-os.

Em termos de história, que tem roteiro assinado pelo próprio Samir e por Furat al Jamil, encontramos acalento principalmente nos personagens. Não é um roteiro complicado, por mais que o cineasta-roteirista brinque com a temporalidade dos acontecimentos, e deixa tudo sempre muito claro. Entendemos quem são essas figuras e, sobretudo, como elas se comportam por ali.


Além disso, logo fica evidente que Samir tem algo para falar: Essa questão de levarmos nossa terra conosco, seja por meio de costumes, ensinamentos ou seja lá o que for, tem uma força interessante dado o contexto que o mundo vive hoje. Apesar de algumas histórias banais que surgem aqui e ali, há potência no envolvimento amoroso de Amal, no beijo gay, na nudez.


O problema do filme, e que joga a nota para baixo, é a realização em si. Ainda que Samir vá fundo em algumas provocações como acima comentamos (a nudez, o sexo), não há preocupação estética com a história. O filme chega perto do visual de algum dramalhão para TV, sem a potência e a elegância que esses personagens exigem. Falta pungência na forma de fazer filme.


Bagdá Vive em Mim tem uma história emocionante, conectada com os tempos atuais, e que é povoada por bons personagens -- principalmente Amal, um sopro de frescor do cinema árabe. Mas falta mais potência na direção, na forma de contar essa história e até uma coerência melhor na conclusão. E, cá entre nós, um filme só sobre Amal tinha muito, muito mais potencial.


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