• Bárbara Zago

Crítica: 'Baseado em Fatos Reais' falha com história sem novidades


Baseado em Fatos Reais teve sua primeira exibição em maio de 2017, no Festival de Cannes. Ainda que Roman Polanski, diretor do longa, seja mundialmente reconhecido por obras como O Bebê de Rosemary e O Pianista, é necessário questionar quão certo é ceder-lhe esse espaço neste tipo de evento. Afinal, há 39 anos o cineasta é considerado foragido pelos Estados Unidos após ser condenado pelo estupro de uma menor de idade.

A relação entre carreira e vida pessoal tem sido um debate polêmico, e necessário, nos últimos anos. Recentemente, quem teve sua carreira levada por água abaixo foi o ator Kevin Spacey, após ser acusado por abuso. Não apenas ele foi obrigado a deixar seu papel de protagonista na série original da Netflix, House of Cards, como também foi substituído por Christopher Plummer em Todo o Dinheiro do Mundo. Ao mesmo tempo que medidas radicais foram tomadas para esse tipo de situação, Polanski encontra-se foragido na França, dirigindo filmes com grandes artistas, como é o caso deste, que inclui a atriz Eva Green.

Originalmente intitulado de D’après une histoire vraie, o filme se inicia com o sucesso literário de Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner). Uma fila formada com centenas de pessoas, ansiosas pelo autógrafo da escritora. Seus fãs contam o quanto se emocionaram com o livro, que traz temas como internação e suicídio, pelo seu aspecto realista. Quando Delphine pede que encerrem a sessão de autógrafos, quem aparece é Elle, interpretada por Eva Green. Com um sorriso que consegue ser bonito e perturbador simultaneamente, Elle entra na vida da autora de maneira abrupta e estranha. O filme a partir daí recupera traços de Misery, obra de Stephen King, pois se estabelece uma relação de obsessão do admirador sobre o admirado.

No aspecto inovação, Polanski falhou de maneira significativa. E mais do que isso: para provar um ponto bastante óbvio, acabou se repetindo mais do que o necessário, e tornou o filme ainda mais lento. O thriller psicológico tem uma história interessante, mas cenas que fazem o público se perguntar se já assistiram à esse filme antes. Polanski parece ter sido influenciado por filmes como Corra! e A Bruxa, em que existe uma tensão inerente, porém sem jumpscares. Funciona, mas de maneira previsível.

Talvez o grande ponto forte do filme passe despercebido. Ainda que de maneira confusa, o filme trata sobre a loucura da protagonista, seja através de sua relação com Elle, de sua exaustão ou de sua ingestão exagerada de remédios, entre eles um ansiolítico. Enquanto a personagem vive sua loucura, também expressa a importância de relatar a verdade. Não se esclarece na história se a loucura se trata apenas de possíveis delírios, alucinações, ou até mesmo de um transtorno de personalidade. De qualquer forma, revela nas entrelinhas como mesmo a realidade vivida pela personagem é real. O fato de sua realidade se distinguir da esperada não tira sua veracidade.

Polanski utilizou recursos linguísticos que dão pistas sobre o final do filme, ainda que bastante sutis. O idioma original é francês, então é esperado que na tradução algo seja perdido. Exemplo disso é o próprio nome da personagem de Eva Green. Ela afirma, logo no início, que Elle é um apelido para Elisabeth. No entanto, elle em francês significa ela, ou seja, trata-se de um artigo indefinido, não um nome próprio. É a partir desse mistério que o espectador começa a adquirir dicas sobre sua verdadeira identidade.

Polanski conseguiu retratar bem uma psicopatologia, ainda que a mesma não fique clara. Conceitualmente, é possível se confundir sobre o que é sintoma e o que é efeito colateral. Mas acredito que essa tenha sido sua intenção. A história é mais interessante do que a maneira como ela é exposta no filme. No entanto, aborda a loucura de uma maneira diferente, ainda que a relação de obsessão já tenha sido bastante explorada no cinema.

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