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  • Matheus Mans

Crítica: 'Berlin Alexanderplatz' é odisseia do homem moderno


Lançado em 1929, o livro Berlin Alexanderplatz se tornou não apenas um marco na literatura expressionista alemã, como também se tornou referência quando falamos em obras germânicas. Afinal, o autor Alfred Döblin soube fazer um recorte preciso em pouco mais de 500 páginas sobre o homem alemão daqueles tempos. Agora, o cineasta Burhan Qurbani (Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes.) dá uma roupagem atualizada para essa clássica história.


Em Berlin Alexanderplatz, acompanhamos a jornada de Francis (Welket Bungué). Ao contrário do livro original, que mostrava a história de um ex-detento, acompanhamos como esse imigrante (ou seria refugiado?) tentando levar uma vida decente na Alemanha. Ele quer oportunidades para ser quem sempre sonhou ser. Oras, a Europa não é a terra das oportunidades? No entanto, Francis acaba encontrando desafios. Ou, como diria Drummond, pedras no meio do caminho.


E assim, como um Odisseu moderno, vemos esse homem numa jornada tortuosa, ao longo de três horas de duração, encontrando saídas, privações, ameaças. Primeiramente, tenta fazer um trabalho "sério" como operário, mas não dá certo. Não consegue se desumanizar. A saída é aceitar o trabalho de Reinhold (Albrecht Schuch), um cara estranho, cheio de trejeitos de personagens de Gil Vicente. É o diabinho no ombro de Francis, levando-o ao mundo das drogas.


Qurbani, assim, cria a jornada do homem moderno na Alemanha. A jornada do imigrante que, privado de oportunidades, tenta se manter no caminho correto. Tenta ser decente. Mas parece que tudo ao seu redor não contribui para que ele se mantenha nessa direção. Como diz a narração de Berlin Alexanderplatz em determinado momento, ele está caminhando numa alameda escura, sem margear. Ele corre, bate em árvores, dá de cara no chão. É sua história.

O cineasta também moderniza a estética da coisa. Quem viu a minissérie de 15 horas que também adapta o romance, perceberá que pequenas coisas mudam para fazer sentido dentro dessa jornada. A estética neon dá o tom. Além de modernizar também no olhar, a fotografia brinca com o underground da coisa. Mostra a jornada do alemão que não vemos. O que não é mostrado -- algo parecido com o que o ótimo Synonymes fez recentemente. É o oculto.


Uma pena que o roteiro derrape aqui e ali. Adaptado por Martin Behnke (da série Dark), há algumas simplificações de decisões, assim como um maniqueísmo que cansa. Parece que Francis só pode ser totalmente bom ou totalmente ruim, sem caminho do meio. Uma característica marcante do romance de 1929, mas que também deveria ter passado por uma atualização aqui. Deixaria o filme mais de acordo com as narrativas do homem moderno.


Por fim, não podemos esquecer do elenco. Bungué (Joaquim) mergulha de cabeça no seu personagem, participando do impressionante desenvolvimento do personagem. Jella Haase (Looping) também chama a atenção como a presente Mieze. Mas não adianta. O filme é de Schuch, que brilha como um vilão estranho, cheio de tiques, e que fica marcado por sua emoção misturada estranhamente com a frieza de seus atos. Um vilão complexo. Um vilão real.


Berlin Alexanderplatz é um filmaço alemão, que faz com que nem sintamos as suas três horas de duração. A modernização do romance, apesar de manter algumas das características mais essenciais da odisseia tradicional, é impactante e diz mais sobre os movimentos de imigração de hoje em dia do que filmes completamente focados nessas histórias. Merecia mais reconhecimento e atenção. Pena que vai passar batido do grande público nas salas de cinema.

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