• Matheus Mans

Crítica: ‘Bingo’ é um novo marco para o cinema nacional


Cidade de Deus, Central do Brasil, Tropa de Elite. Independente se gosta ou não desses filmes, é impossível negar que são um marco para o cinema nacional. Seja em termos de bilheteria, alcance internacional ou qualidade da produção, todas essas histórias ficam marcadas no cinema brasileiro. Agora, um novo filme entra nesta seleta lista: Bingo -- O Rei das Manhãs, que impressiona pela qualidade da produção e pela coragem em contar a vida e história do homem por trás do palhaço Bozo.

No centro da trama, Augusto Mendes (Vladimir Brichta, em seu melhor trabalho). Filho de uma grande atriz da televisão (Ana Lúcia Torre), ele tenta se provar no meio artístico, mas só consegue espaço em pornochanchadas. A coisa só muda quando ele passa num teste para ser o palhaço Bingo, apresentador de um programa matinal para crianças. A partir daí, sua vida ganha impulso e ele começa a enfrentar um carrossel de emoções: drogas, sexo e uma vida cada vez mais alucinada.

Toda essa história do palhaço Bingo, porém, não saiu da mente do roteirista Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças) ou do diretor Daniel Rezende, que faz sua estreia na direção, mas que foi editor de filmes como Cidade de Deus. Tudo é baseado na vida de Arlindo Barreto, o primeiro Bozo do SBT e que viveu uma vida de excessos. Para não ter problemas com as marcas, Bozo virou Bingo. Arlindo virou Augusto. SBT virou TVP. E a Xuxa virou Lulu. Só a Gretchen, curiosamente, manteve o nome original.

A troca de nomes, apesar de parecer estranha no começo, é o primeiro grande acerto do filme Bingo. Ao contrário de outras biografias recentes do cinema nacional, como Elis e Tim Maia, o diretor não teve medo de falar verdades, mostrar cenas ousadas e escancarar os bastidores da TV nos anos 1980. Com certeza, SBT e a marca dona do Bozo não ficariam felizes em ver o nome do palhaço vinculado à vida de excessos de Barreto, que chegou a apresentar o programa drogado.

O filme, então, ganha uma força pouco vista no cinema nacional. O roteiro de Bolognesi vai direto ao ponto e também acerta ao não tentar abraçar o mundo. Afinal, as cinebiografias brasileiras contam com um problema recorrente de tentar mostrar toda a história da pessoa, desde a infância até o último respiro. Em Bingo, é mostrado só o trecho que interessa e o roteirista segura para si a responsabilidade de aprofundar toda a história de Augusto ao longo do filme. E consegue.

Parte disso também é fruto do talento de Rezende. Que diretor! Nova revelação do cinema nacional, ele consegue imprimir sua marca na história e cria um filme ritmado, intenso, que não perde sua força. Afinal, quando a coisa parece estar esfriando, ele vem com uma cena ousada ou com um momento marcante da trajetória do Bozo - como quando levou Gretchen ao programa para dançar com as crianças ou quando atingiu a liderança e pisou numa boneca da Barbie em alusão à Xuxa.

Além disso, Rezende não é um diretor passivo que fica com a câmera no tripé o tempo todo. Pelo contrário. Assim como Fernando Meirelles ou José Padilha, o diretor de Bingo ousa nas filmagens e mostra todo o seu potencial -- em uma ou outra vez, até de maneira excessiva. Os momentos finais, por exemplo, são marcantes com Rezende fazendo um plano sequência de cair o queixo, ainda que ele tenha sido finalizado com efeitos especiais. É um diretor, sem dúvidas, para ficar de olho.

Outra parte do mérito do filme também fica com as atuações. Apesar de um leve excesso de personagens, todos atores estão bem. Ana Lúcia Torre e Cauã Martins (filho do Bingo) se mostram entusiasmados com seus papéis -- assim como o ótimo Augusto Madeira, que serve como escape cômico. Leandra Leal se entrega e faz uma ótima figura de diretora forte e preocupada com seu trabalho. Arrisco dizer que é a melhor atuação da atriz em toda sua carreira.

O grande destaque, porém, fica com Brichta. É o papel de sua vida. No filme, ele consegue transitar entre o eufórico e o viciado em drogas e sexo para um homem que vê sua vida desmoronar e que vê se filho se distanciar enquanto alegra milhões de crianças em suas casas. Ao mesmo tempo, é o homem atormentado por fazer sucesso e ninguém saber. Palmas para Brichta. Ele deve ser indicado à dezenas de prêmios e, com justiça, irá levar essas dezenas para casa.

No fim, Bingo -- O Rei das Manhãs é um dos melhores filmes nacionais recente -- se é o melhor desde Cidade de Deus, é assunto para outro post. No entanto, ainda assim, o filme é corajoso, ousado e tem uma direção criativa que não é vista há tempos. Como é bom mostrar para os críticos “vira-latas” que o cinema nacional tem potencial! O Brasil precisa de mais filmes como Bingo. Agora, é aguardar a série de premiações do filme -- e, quem sabe, um espacinho no Oscar de 2018.

EXCELENTE

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