• Matheus Mans

Crítica: ‘Bright’, da Netflix, é ideia incrível com execução tenebrosa


Logo nas primeiras cenas de Bright, Will Smith é despertado pela esposa com uma séria e estranha reclamação: tem um fada -- sim, no masculino -- usando o bebedouro de pássaros no jardim. Smith, que vive o policial Daryl Ward nesta fantasia da Netflix, vai contrariado ao local e, após algumas pauladas com sua vassoura, mata o fada em frente a todos os seus vizinhos.

A cena, que causa estranhamento, logo desperta curiosidade. Afinal, com ela, o filme tinha tudo para entrar numa seara pouco explorada no cinema nos últimos anos: a fantasia quase medieval que se funde com a realidade. A nossa realidade. No entanto, o que era para ser um novo Distrito 9, vai na direção de MIB e, no fim, se torna mais uma tentativa de fantasia fracassada.

A história é a seguinte: Daryl Ward (Smith) é um policial cheio de problemas. Afinal, depois de levar um tiro, precisa enfrentar uma séria recuperação e, ainda, lidar com um policial orc que é designado para ser seu parceiro. No entanto, no meio do caminho, aparece uma elfa com uma varinha mágica, iniciando uma desesperadora perseguição para tomar o controle do artefato.

E aí vira bagunça. Afinal, o grande atrativo inicial de Bright é oferecer uma mistura de real e fantasia. Os orcs sofrendo preconceito e relegados aos guetos; fadas sendo mortas como ratos; e os elfos vivendo numa sociedade artificial e longe de todas as outras raças. Porém, essa ótima ideia do diretor e roteirista David Ayer (o mesmo de Esquadrão Suicida) é jogada no lixo.

Primeiro por conta do roteiro. Ao invés de focar numa história que desenvolva esses pontos e mostre os seres mitológicos em nossa sociedade, como Neill Blomkamp fez no já citado Distrito 9, Ayer opta por uma trama sem sal de perseguição ao estilo Sessão da Tarde. O tal do orc policial, vivido pelo excepcional Joel Edgerton, vira um coadjuvante fraco e sem um desenvolvimento honesto.

Além disso, a história tem resoluções fáceis. Em certo momento, um personagem morre. É o momento que parece que as coisas vão melhorar. Logo em seguida, porém, um outro personagem arruma uma solução fácil pra essa morte e tudo volta ao normal. Há, também, várias tramas extremamente subaproveitada, como a divisão hierárquica social e até um dragão que passa batido.

Isso também é problema de direção. Ayer, que começou bem sua carreira com Marcados para Morrer, mostra que não consegue manter o controle sobre sua criações quando elas atingem grandes proporções, como é o caso de Bright e Esquadrão Suicida. Na produção da Netflix, é visível que não há controle sobre o que acontece. Personagens vem e vão, as motivações somem.

É a clara falta de um pulso firme, de alguém que oriente a história para que ela tenha certa coesão. Afinal, Bright começa tocando em assuntos delicados, mas logo se transforma em algo menor. E mesmo esse algo menor não consegue manter uma qualidade aceitável. É um apanhado de remendos e que derruba os seus personagens, cheios de potencial, num abismo de falta de motivação.

No final, fica a sensação clara de que faltou algo. Não há empatia por nenhum personagem -- nem Smith, sempre carismático, salvou isso aqui -- e não há um bom sentimento pela história contada. É a sensação de fracasso compartilhado, quando algo com potencial vai pra lata de lixo. A lição, porém, é clara: não dê projetos com potencial para Ayer. Ele vai dar um jeito de estragar.

RUIM

#Crítica #Streaming #Netflix #Filme #Ação #Fantasia