• Matheus Mans e Bárbara Zago

Crítica: 'Bumblebee' é aventura nostálgica e refrescante


Esqueça as explosões, o excesso de barulho e as quase três horas de duração. Pelo visto, os erros e exageros do diretor Michael Bay ficaram para trás no universo da franquia de Transformers. Agora sob a tutela de Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas), a trama dos robôs-automóveis ganha o primeiro spin-off com o nostálgico e apaixonante Bumblebee, longa-metragem que chega aos cinemas nesta terça-feira, 25, com a responsabilidade de revitalizar a franquia e mostrar que ainda há muita história a ser contada a partir de amados -- e odiados -- personagens. Basta ter força de vontade.

A trama do filme começa com a conhecida guerra entre os Autobots e os Decepticons. No meio do caos, Bumblebee é o ser escolhido para escapar da violência entre as raças robóticas e estabelecer um porto-seguro na Terra. Aqui, logo após uma breve confusão com o militar Burns (John Cena), ele acaba encarnando um Fusca e virando o automóvel oficial da adolescente Charlie (Hailee Steinfeld). É a deixa para o início de uma história nostálgica, refrescante e apaixonante, ambientada nos anos 1980, que mistura ação, aventura e boas cenas de luta entre Bumblebee, os militares e dois fortes Decepticons.

A direção de Knight, ao contrário da de Michael Bay, é clara, limpa e sem exageros. Como já ressaltado, não há mais explosões, barulhos ensurdecedores ou efeitos especiais que roubam a cena -- num sentido negativo. Há, aqui, a valorização do roteiro de Christina Hodson (do fraco Paixão Obsessiva) e de toda a magia que envolve o personagem do Bumblebee. As cenas de luta estão presentes e muito bem rodadas, permitindo que o espectador entenda o que está acontecendo. Mas o foco, de fato, é a relação entre o robô e a adolescente. Cada qual com seu objetivo e suas dificuldades.

São nesses momentos, afinal, que Knight consegue encontrar o fio da meada e brilhar. A sensibilidade vaza da tela com sequências e cenas que mostram os dois se descobrindo, se entrosando e entendendo as necessidades um dos outros. A boa trilha sonora, repleta de clássicos da época, ajuda a embalar as emoções e a entregar um conteúdo bem feito e bem produzido para o espectador, que precisa apenas se deixar levar pela história e embalar no ritmo refrescante da aventura. Destaque, também, para a criação visual de Bumblebee, que amedronta e diverte em iguais medidas quando necessário.

Ao dar foco quase total ao texto de Hodson, porém, as falhas e limitações da roteirista acabam ficando mais evidentes. Ainda que não haja nenhum grande problema narrativo, é visível excessos e gorduras em sua trama. Circundando a relação de Charlie e Bumblebee, por exemplo, há dois personagens em evidência: o crush Memo (Jorge Lendeborg Jr.) e o simpático irmão Otis (Jason Drucker). Teria sido muito mais produtivo e interessante ter focado na relação de irmãos do que numa paixonite avulsa. Além do que, Drucker (Diário de um Banana) é muito melhor e tinha mais história pra contar.

Além disso, a trama dupla de antagonistas acaba rivalizando na trama. De um lado, os clássicos militares durões, comandados por Burns (John Cena). Do outro, os Decepticons representados por Shatter (Angela Bassett) e Dropkick (Justin Theroux). Ainda que as duas histórias tenham confluências, acaba ficando um pouco demais. Teria sido interessante ter focado apenas na lutra entre os robôs e, pela primeira vez num filme de Transformers, ter deixado os humanos ainda mais de lado. A trama acaba ficando saturada e os clichês, evidentes, se acentuam. Faltou experiência à Hodson.

Quanto ao elenco, sem Shia LaBeouf ou Mark Wahlberg, há pouquíssimos problemas. Ainda que a protagonista Hailee Steinfeld (Quase 18 e Bravura Indômita) tenha sido desnecessariamente masculinizada, como se os produtores tivessem medo de emplacar uma personagem principal completamente feminina na franquia, o papel cai bem com a atriz e ela consegue passar emoção mesmo em cenas recheadas de efeitos especiais. Destaque também para Cena (Pai em Dose Dupla 2), Lenny Jacobson (Narcos: México) e Drucker. Dão um razoável suporte ao longa quando exigidos pela direção.

Aos que anseiam por cenas de ação grandiosas, também vai se contentar. Como já dito, há um entendimento melhor que acontece na cena. Lembra de Transformers: O Último Cavaleiro? Era humanamente impossível entender o que estava acontecendo em cada cena de luta, guerra ou explosão. Era uma orquestra muito mal ajambrada por Bay e que só fazia sentido para ele. Aqui é o contrário. As brigas são mais individuais e bem feitas. Sem falar da boa noção espacial, ausente em filmes anteriores da franquia.

Bumblebee, por fim, é uma trama refrescante, leve e ideal para um cinema em família ou, futuramente, para passar na Sessão da Tarde. Sem os incansáveis rodeios e exageros de Michael Bay, o longa-metragem mostra que há muita gasolina pra queimar na franquia, que ainda tem muita coisa a ser explorada -- como a relação dos robôs, as origens, cenas de luta mais interessantes. São dezenas de boas oportunidades perdidas nos outros seis filmes da franquia e que agora, de uma só vez, dá mostras de que continua viva e pronta para encantar. Esqueça tudo o que viu até agora e dê uma chance à Bumblebee. É cinema de ação e aventura como Michael Bay sempre quis fazer, mas não conseguiu. É um filme tão leve e divertido que, no final das contas, nem parece ser de Transformers.

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