• Matheus Mans

Crítica: ‘O Castelo de Vidro’ emociona, ainda que sem poesia


Ao se inteirar da trama do filme O Castelo de Vidro, impossível não fazer uma comparação com Capitão Fantástico, belíssimo trabalho de Matt Ross. Parece até mesmo que tenta surfar na onda do longa-metragem de 2016. O longa que chega ao cinema nesta quinta-feira, no entanto, surpreende e consegue ir além na execução da trama e no desenvolvimento de suas personagens. No final, só falta a poesia.

O filme, inspirado na autobiografia da jornalista Jeannette Walls, conta a história de uma família disfuncional: o pai (Woody Harrelson) e a mãe (Naomi Watts) não trabalham e vivem apenas de pequenos bicos. Enquanto isso, quatro irmãos tentam se virar como podem. Uns fazem a própria comida e outros ajudam o pai a imaginar a casa dos sonhos -- o tal castelo de vidro do título.

Com o decorrer da trama, porém, as coisas vão se complicando. O dinheiro de Rex, o pai, e de Rose Mary, a mãe, vai acabando e todo o sustento da família se perde. Os irmão nem ao menos são alimentados. Aí que começam as dificuldades e o drama de O Castelo de Vidro ganha força, com situações difíceis de imaginar como reais e que impactam, de verdade, a audiência.

Tudo é fruto do ótimo trabalho de roteiro de Andrew Lanham (do péssimo A Cabana) e do também diretor Destin Daniel Cretton (que se destacou com Temporário 12). Inspirados no livro de Jeannette Walls, que aqui é interpretada por Brie Larson (oscarizada por O Quarto de Jack), os dois constroem uma trama com bons momentos e que emocionam -- ainda que nada seja forçado. Tudo flui de maneira natural.

A direção de Cretton também é um destaque. Apesar de exageros no contraste entre a vida atual e passada de Jeannette, e que endossa o tal do “sonho americano”, o havaiano tem um bom material em mãos e consegue tecer uma boa teia de acontecimentos, intercalando entre tempos distintos. Em nenhum momento ele deixa a história confusa e não abusa de didatismo.

O grande destaque, porém, fica com as atuações. Watts, que vem do péssimo trabalho em Gypsy, consegue fazer um tipo excêntrico sem cair na caricatura. Brie Larson mostra que tem potencial e que mereceu ganhar o Oscar de Melhor Atriz de 2016 -- ainda que dê um aperto no coração a derrota de Charlotte Rampling. Ela consegue transitar entre emoções e convence com o sofrimento de Jeannette.

Woody Harrelson, enquanto isso, é a grande estrela. Apesar de exagerar um pouco no jeito de falar, parecendo sempre estar bêbado, o astro de Truque de Mestre e Onde os Fracos Não tem Vez rouba a cena. Difícil não ser lembrado nas indicações de Melhor Ator para a premiação do Oscar de 2018. Se Viggo Mortensen foi lembrado por Capitão Fantástico, ele também deve ser.

No final, O Castelo de Vidro mostra ser um drama mais real e impactante por sua “crueza” do que Capitão Fantástico, que tem um pé a mais no sonho e na imaginação. A trama tem uma boa construção, apesar de alguns exageros -- assim como a direção de Destin Daniel Cretton, que vai firmando sua carreira. Depois da última cena, só fica a sensação de que faltou um pouco mais de poesia na história. Se não fosse isso, seria um filme impecável. E um certo candidato ao Oscar.

ÓTIMO