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  • Matheus Mans

Crítica: ‘Château-Paris’ é filme com boa ideia, mas sem foco narrativo


Pode-se considerar louvável o que os cineastas Cedric Ido (Twaaga) e Modi Barry (do curta Carpe Diem) tentaram fazer com o novo filme Château-Paris. Estreia francesa desta quinta, 22, o longa-metragem acompanha a vida e rotina de Charles (Jacky Ido), francês negro e da periferia de Paris que trabalha organizando um grupo de “vendedores” que ficam na porta do metrô oferecendo serviços em cabeleireiros da região e que tem sonho de comprar uma barbearia ali perto.

A partir dessa premissa, os dois cineastas partem em dois caminhos distintos: o primeiro é se aprofundar na rotina do protagonista enquanto tecem uma teia de personagens ao seu redor. Há, também, a tentativa de construir uma trama de comédia de erros, ao estilo dos irmãos Coen, com uma espécie de investigação que Charles faz com uma mulher que ronda a região e é affair de um dos empresários dali. Mas, como disse acima, os cineastas apenas tentam fazer isso.

O resultado de Château-Paris, infelizmente, fica muito aquém do que poderia ser. Primeiro por conta dos personagens amontoados em uma narrativa sem foco. Há dezenas de casos e situações rolando na tela, como a briga da equipe de Charles com os vendedores rivais; a barbearia que é alvo dos sonhos do protagonista; a dinâmica dos salões; o tal mistério da mulher; e por aí vai. O problema é que o roteiro, escrito pela dupla e pelo estreante Joseph Denize, não avança.

Tentando abarcar todos esses temas, a história trafega em muitas direções e acaba ficando desmembrada demais. Não há uma unidade, não há uma trama central. Isso, em alguns casos no cinema, até funciona -- como Pulp Fiction e até Cidade de Deus. Mas são vários personagens que se encontram em alguma temática ou um protagonista central. Aqui, em Château-Paris, não há esse encontro. Tudo fica fluído na tela e não encontra sentido dentro da narrativa.

Até a comédia de erros acaba fracassando, com um humor que não encontra seu lugar e não cativa a audiência. Afinal, não há impacto na história e o público acaba não se identificando com a maioria dos personagens.

A ideia da história, do produtor Matthew Gledhill (Longe dos Homens), até que é boa. Vai mostrar a vida, de forma ficcional, de um grupo marginalizado na França e que consegue dar sentido para um sociedade cada vez mais multifacetada. É interessante ver como esses grupos sociais se comportam. Pena que o filme, como um todo, não avança nesses temas e fica apenas na superfície. A direção inexperiente de Ido e Barry também não colabora para o resultado final.

O filme só não tem um resultado ainda mais mediano por conta da atuação do ótimo Jacky Ido, que participou de Bastardos Inglórios. Ele tem um carisma que salta da tela, parecido com o do francês Omar Sy. Ele tem potencial pra ir além na carreira e protagonizar cada vez mais bons filmes. Jean-Baptiste Anoumon (Paulette) também está muito bem como amigo malandro de Charlie, que vai dando jeito em tudo que vê pela frente. É um tipo muito engraçado.

No final, Château-Paris é um filme que conta com boas ideias, mas não avança em nada e fica na superfície, causando uma estranha sensação na audiência de que o filme não foi à lugar algum. É simpático o protagonista Jacky Ido e é bacana ver a periferia de Paris bem retratada. Mas faltou. Faltou foco, experiência dos diretores e, sobretudo, uma unidade na sopa que se tornou o longa-metragem francês. Quer um outro lado de Paris? Veja O Ódio. Esse não deu.