• Matheus Mans

Crítica: 'Clímax' é viagem alucinógena de Gaspar Noé


Apesar de rejeitar o rótulo, Gaspar Noé é um cineasta deveras polêmico. Chocou com o estupro lento e gráfico de Irreversível, com as cenas de sexo explícito em Love, com a crueza do protagonista de Sozinho Contra Todos e pelo alto grau de bizarrice alucinógena em Enter The Void. Agora, o cineasta argentino volta para esta último provocação com o forte e impactante Clímax, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 31. Ainda que mais puritano em alguns elementos, com as cenas de sexo e a violência, Noé não deixa de chocar ao mostrar o mais obscuro do ser humano.

A trama de Clímax é simples. Um grupo de bailarinos, com cerca de 25 integrantes, se reúne para fazer mais um ensaio da apresentação que está por vir. Como acompanhamento, além da música, eles se servem de comes e bebes -- dentre eles um ponche, servido pela anfitriã da noite. A coisa desanda de vez, porém, quando os dançarinos começam a perceber que a bebida, provavelmente, estava batizada com algum tipo qualquer de alucinógeno. O estado geral do encontro se torna instável e muito perigoso, quando parece que uma espécie de forte histeria coletiva toma conta.

A primeira coisa a se ressaltar: a qualidade técnica do longa-metragem é uma das melhores já vistas nos trabalhos de Gaspar Noé. A câmera funciona como uma mosca e flana por entre os dançarinos -- seja em qual momento ou estado for. O impacto desse tipo de filmagem é imediato. Além do público se sentir parte daquele caos alucinógeno, a sensação é de que a "brisa" que os personagens estão sentindo começa a reverberar na audiência. A câmera treme, gira, dá piruetas. As emoções, assim, vão à flor da pele e a sensação é curiosa. Impressionante o que Noé faz apenas com a câmera e sons.

Indo além, há muito mais aparatos técnicos a serem destacados. A fotografia, novamente a cargo de Benoît Debie (Irreversível), possui um forte tom avermelhado que traz significados metafóricos para a história. A trilha também é ótima. Forte, dançante.

Mas o grande ponto está em duas coisas: as histórias e as atuações. Sobre este último quesito, pouco a reclamar. Ainda que a maioria esmagadora do elenco não seja formada por atores, mas sim por bailarinos, tudo funciona em harmonia e coesão. A ótima Sofia Boutella (Atômica) exagera aqui e acolá, mas entrega uma personagem complexa, confusa e cheia de medos. É ótima. Destaque também para Sarah Belala (Missão Impossível: Efeito Fallout), Romain Guillermic, Souheila Yacoub e Kiddy Smile. Todos eles entram na viagem de Noé e correspondem bem até nos infinitos planos-sequência.

Já sobre a história, há algumas considerações. Primeiro: há, sim, um grave problema de repetição. Em determinado momento, a trama acaba caindo numa série de situações que já tinham sido exploradas. Faltou ir um pouco além e quebrar este certo puritanismo inédito na filmografia de Noé -- para se ter uma ideia, há apenas uma ou outra cena de nudez. Mas, mesmo com esse problema, a história é fortíssima. Explorando a histeria humana, o diretor consegue construir um filme de terror pouco usual e que choca. Lembra Suspiria, e até filmes de possessão. Mas a força da história que Noé conta aqui vai muito além. Difícil não ficar impressionado em algum momento.

Clímax, sem dúvidas, é um dos filmes mais acessíveis de Gaspar Noé, mesmo sendo uma viagem alucinógena -- tanto na história quanto para a experiência do público. Não é seu melhor filme, deixando Irreversível ainda entocado no primeiro lugar, mas chegou a esbarrar na primeira colocação. É mais do que uma simples história sendo contada na telona. É uma experiência, é cinema, é trabalho inteligente de edição, direção, atuação e roteiro. Palmas para Noé. Só ele consegue encantar, chocar e fazer refletir de maneira tão contundente e tão coesa. Não há nenhum cineasta parecido. É único e original.