• Bárbara Zago

Crítica: 'Com Amor, Simon' é bom filme, ainda que pouco ousado


Dentro de uma sociedade que ainda carrega vestígios de um pensamento machista e homofóbico, diversos artistas que se assumiram homossexuais ao longo de suas carreiras chamaram a atenção para o filme Com Amor, Simon. Atores como Neil Patrick Harris (How I Met Your Mother) e Jesse Tyler Fergunson (Modern Family) foram exemplos disso: através de redes sociais, incentivaram que todos fossem ao cinema assistir ao mais novo filme de Greg Berlanti.

O romance adolescente estrelado por Nick Robinson (Jurassic World) permite que o espectador entre no universo do protagonista, entendendo tanto seu ponto de vista como enfrentando também suas inseguranças. E este talvez seja o aspecto responsável por tanto aproximar o filme de seu público.

Nos anos anteriores, longa-metragens que expuseram a temática gay em suas obras tiveram seu devido reconhecimento, inclusive por parte da Academia. Filmes como Moonlight e Me Chame Pelo Seu Nome não apenas foram nomeados ao Oscar, como receberam estatuetas, ainda que abordem o tema da homossexualidade de maneiras bastante distintas. Com Amor, Simon, no entanto, parece ter sido direcionado, especialmente, para o público adolescente. Assistindo ao filme, sinto estar lendo um diário -- honesto, extremamente idealizado e cheio de falhas.

Simon é um adolescente que começa a se aproximar de sua homossexualidade quando passa a trocar e-mails com Blue, um rapaz gay de sua escola, mas que não revela sua identidade até os momentos finais. O filme é uma comédia romântica, no estilo de John Hughes, que se considera inovadora, ainda que apresente aspectos bastante comuns, começando por sua trilha sonora. Com Amor, Simon tem uma trilha completamente pop, cheia de músicas dos Bleachers, que estranhamente é a banda do consultor musical do filme.

Ao mesmo tempo, tenta contrastar esse padrão com hits dos anos 60, incluindo artistas como Whitney Houston e Michael Jackson, algo que acaba servindo como justificativa para um estilo retrô do personagem principal -- afinal, ele vai vestido de John Lennon na festa de Halloween. Ainda que agradável, musicalmente falando, o filme não se arrisca em momento algum.

Com Amor, Simon tem uma aparência de sitcom americana: um protagonista fácil de criar empatia, um grupo de amigos que se encontram todos dias, além de um tom agradável com pinceladas de humor em sua maioria. E isso não acontece à toa -- Berlanti é produtor de televisão que traz uma bagagem de experiência com séries, como Arrow, Supergirl e The Flash. Com os roteiristas, Isaac Aptaker e Elizabeth Berger, não é diferente, já que são responsáveis pela This Is Us, vencedora de um Emmy. O filme traz elementos que poderiam ser tanto melhorados quanto explorados, mas acaba-se tendo a impressão de que manter-se na zona de conforto foi uma escolha geral.

Se eu assistisse esse filme com 16 ou 17 anos, provavelmente teria uma visão diferente. Love, Simon é muito agradável, mas também muito idealizado. Como mencionei, é como ler o diário de um adolescente. E a adolescência é um período em que todos se sentem o centro das atenções, constantemente julgando e sendo julgados, além de ter que experienciar um turbilhão de emoções e dúvidas. Nisso Nick Robinson se saiu extremamente bem; durante os 109 minutos de filme, foi capaz de transmitir seu sofrimento e insegurança para o público, tirando um pouco o aspecto "conto de fadas" da história.

O que me pareceu contraditório, no entanto, foi a maneira como retrataram a homossexualidade. Ao mesmo tempo que Com Amor, Simon tenta passar uma mensagem de que uma pessoa gay é igual à qualquer outra, existem cenas que reforçam a ideia de que ser gay não é tão natural como o personagem tenta mostrar. A primeira cena que de fato me incomodou se dá quando Simon está sonhando com sua ida para faculdade, pois lá poderia ser completamente assumido. A cena é repleta de dança, pessoas com roupas coloridas e uma música animada. Depois de imaginar, ele finaliza com "Talvez não tão gay". O que seria tão gay?

O emocionante monólogo de Jennifer Garner, que parece uma versão bastante enfraquecida daquele feito por Michael Stuhlbarg em Me Chame Pelo Seu Nome, deixa claro que a orientação sexual de alguém não interfere em quem ela é, na sua essência. Pouco tempo depois, a melhor amiga de Simon, Leah, interpretada por Katherine Langford de 13 Reasons Why, fala algo como "Preciso matar a imagem do Simon hétero que eu tenho".

Com Amor, Simon é um bom filme, mas seu medo de sair da zona de conforto o tornou mais fraco. Parece que o intuito era fazer algo para adolescentes, com cenas que agradariam somente adolescentes, como é o caso do final. Por conta disso, inevitavelmente o longa perdeu um pouco de sua qualidade. No entanto, é uma história importante sobre empoderamento durante o processo de aceitação, além de bastante divertido.