• Matheus Mans

Crítica: Covarde, 'Star Wars: A Ascensão Skywalker' falha como encerramento


Ao parar para pensar em O Despertar da Força, primeiro filme desta trilogia de Star Wars sob escrutínio da Disney, a sensação é de conforto. Numa mistura delicada de novidade com nostalgia, o longa-metragem é um abraço quentinho nos fãs e um chamamento aos que ainda não haviam desbravado a saga. Era o começo perfeito. Já no polêmico e criativo Os Últimos Jedi, havia um senso de originalidade raro na franquia e uma qualidade técnica quase irrepreensível.


Poderia ser a continuação perfeita. A deixa para encerrar a nostalgia, dar poder aos mais novos e, assim, concluir a saga com frescor, personagens marcantes e um sentido por trás de tudo.


No entanto, como ressaltado, Os Últimos Jedi foi polêmico. Afinal, o cineasta Rian Johnson não seguiu a cartilha dos grandes estúdios e fez o que queria. Quebrou expectativas, fez com que Rey fosse uma pessoa comum, democratizou a força, se aventurou na figura de um Luke divertido e descompromissado. Fãs xiitas reclamaram. "Isso não é Star Wars, é uma ofensa à saga". E o que a Disney fez? Deu ouvidos aos "fãs" e, com isso, nasceu A Ascensão Skywalker.


Covarde, birrento e atrapalhado, este novo longa-metragem da saga Star Wars é tudo de ruim que poderia acontecer. J.J. Abrams, de volta ao posto de diretor, joga no seguro após a polêmica com Os Últimos Jedi e com o fracasso de Solo: Uma História Star Wars. A delicadeza nostálgica de O Despertar da Força some para dar lugar à um fan service apressado, tosco, sem sentido. O sopro de originalidade do filme de Rian Johnson é esquecido. E pior: fazem piada com isso.


Covarde, birrento e atrapalhado, este novo longa-metragem da saga Star Wars é tudo de ruim que poderia acontecer

Afinal, sempre que pode, J.J. se vale do roteiro de Ascensão Skywalker pra desmentir, desfazer ou zombar de coisas que aconteceram no filme anterior sem qualquer delicadeza. Além de ser antiprofissional com um colega de trabalho e de franquia, essa atitude acaba atrapalhando o andamento deste longa, que é o encerramento de uma saga iniciada nos anos 1970. Abrams, de alguma forma, se propõe a desfazer nós, seguir a saga como quer e a concluir. Num único filme.


A sensação, assim, é que amontoaram histórias, reviravoltas e significados para agradar os fãs e se esqueceram de dar vida própria ao filme. A todo momento, Rey, Poe e Finn estão se voltando ao passado. É o grande vilão, revelado num plot twist interessante, mas descolado da trilogia; a estrutura do filme, muito parecida com a de O Retorno de Jedi; a volta de personagens mortos; e a necessidade de reafirmação de que A Ascensão Skywalker é um filme para os fãs.


Não é à toa que a origem de Rey, elegantemente resolvida em Os Últimos Jedi, retorna para algo bizarro, mas que deve fazer fãs ávidos por nostalgia suspirarem e vibrarem na sala de cinema.


J. J. Abrams, como já tinha dado mostras em Lost e em Super 8, é um cineasta bom para fazer o que fez em O Despertar da Força -- resgatar personagens, estabelecer histórias, criar mitologias. No entanto, é péssimo no momento que precisa amarrar tudo, resolver reviravoltas e dar um sentido em tudo aquilo que criou. As coisas ficam jogadas e apressadas, além de abusar de explicações que nunca nem sequer foram citadas em algum momento anterior das histórias.


Dessa forma, após três filmes, Rey (Daisy Ridley, que a cada filme precisa interpretá-la de um jeito); Finn (John Boyega) e Poe (Oscar Isaac) não ganharam histórias de peso, como a de Luke, Leia e Solo. Esse desprendimento, que teve deixa em Os Últimos Jedi, foi esquecido. No final das contas, ninguém acaba tomando o protagonismo de fato. Não é à toa que, em A Ascensão Skywalker, o droide C-3PO é quem carrega todo o primeiro arco narrativo e faz o filme valer.

Aliás, vale ressaltar: há pontos positivos aqui, como o humor do droide, a aventura alucinada e alguns momentos épicos -- a última cena é a única que arrepia, de fato. No entanto, não existe um conjunto interessante. Um arco de peso. Os pontos positivos estão espalhados ao longo de todos os 140 minutos de duração, sem nunca formar algo coeso. Afinal, no meio disso, estão os momentos de nostalgia e a necessidade de corrigir coisas que não precisam ser corrigidas.


O fan service, como um todo, também não é ruim -- a Marvel usa e abusa desse recurso e ninguém reclama. O problema é quando isso toma corpo na trama e acaba influenciando em decisões de personagens e coisas do tipo. Aqui, J.J. Abrams perde o controle da história que está contando para agradar grupos específicos. Até mesma a forma de encerrar arcos acaba se rendendo ao que os outros querem, ao que os outros pediram. Ajoelhou para os fãs xiitas.


A conclusão do vilão Kylo Ren (Adam Driver) é tosca, brega e beira a novela mexicana -- não é à toa que uma sala de cinema, lotada de fãs, caiu na gargalhada. Impossível acreditar que mais de um profissional da Disney viu aquilo, aprovou e mandou seguir. É o cúmulo do absurdo e lembra, de forma triste e melancólica, o encerramento da série Game of Thrones. Personagens mudam de personalidade, coisas acontecem sem conexão com o cânone, tramas se misturam. É o caos.


É há coisas ainda mais complicadas, que podem gerar debates profundos. Rose, personagem que foi alvo de ataques xenofóbicos e racistas, some. É uma vergonha. Os personagens Finn e Poe, enquanto isso, ganham pares românticos para evitar suspeitas de um relacionamento gay -- mas calma, A Ascensão Skywalker não é um filme que evita a homossexualidade; há um beijo de menos de um segundo de duas coadjuvantes que ninguém sabe o nome (contém ironia, ok?).


A sensação, ao final, é de uma trilogia perdida. O ânimo com o O Despertar da Força morre com A Ascensão Skywalker. O desejo, mesmo de um fã de longa data como eu, é deixar a história descansar e só volte quando tiver algo, de fato, para contar. Misturar nostalgia, diferentes diretores e diferentes visões sobre uma história enxuta resulta nisso. Num Frankenstein que tenta agradar muitos e, no final, vai competir com Ameaça Fantasma no hall da vergonha.

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