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  • Matheus Mans

Crítica: 'Cow' vai além da propaganda e se torna filme sensível e potente


Quando li a sinopse de Cow, novo longa-metragem da cineasta Andrea Arnold (Docinho da América), fiquei preocupado que a produção caísse em um tom de propaganda em prol do veganismo ou coisa do tipo -- o que não teria problema, mas seria muito fácil cair em um tipo de cinema panfletário vazio. No entanto, nada disso. O filme, integrante da programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é potente, relevante, interessante e muito forte.


A premissa, porém, é bem simples. Arnold pega sua câmera e acompanha a vida de Luma, uma vaca holandesa leiteira em algum lugar do Reino Unido. Logo no começo do longa-metragem, a vaquinha simpática tem sua primeira cria -- um bezerrinho que rapidamente é tirado de perto da mãe. A partir daí, a cineasta vai mostrando dois caminhos: de um lado, a solidão e a rotina dolorosa de Luma; de outro, os primeiros passos do bezerrinho na vida dessa fazenda leiteira.


Dessa forma, Cow começa a se aprofundar na rotina de abusos que essa fazendo promove. Há uma sensação de que as coisas acontecem até mesmo com cuidado com aqueles animais -- os fazendeiros ouvem música, chamam as vacas com nome e não por números, e por aí vai. Só que não deixa de ser um ambiente de exploração animal. A vaca protagonista, Luma, não pode ficar ao lado de sua cria. Não tem controle sobre sua vida, seus desejos e corpo, suas necessidades.

E como isso não se torna propagandístico, panfletário? Bem simples. Arnold coloca personalidade e intimidade em Luma. Ela não é apenas uma vaca sendo observada sistematicamente por uma câmera. Nós acompanhamos os passos da vaca. Há muito foco em seus olhos -- o ponto de contato entre nós e a emoção do animal -- e sentimos esse processo de "pessoalização". Difícil não sentir alguma conexão e emoção com Luma, tão abusada, explorada.


Obviamente, Cow não é um conto de fadas. Aos poucos, Arnold vai escalando a dor que aparece nas telas. Vai ficando mais intenso, mais preocupante. A cada segundo que se desdobra na tela, o público respira mais rápido, olha a tela com mais apreensão. Será que vai acontecer algo com Luma? Será que está chegando seu fim? O que vai acontecer com ela a seguir? O ambiente vai se tornando quase que naturalmente opressor e você, pelos olhos de Luma, vai sentindo aquilo.


No final, difícil não ficar com uma dor profunda. E o filme, aqui, só não tem a nota completa das cinco estrelas por conta dessa conclusão inclemente, melancólica, triste demais -- não há escapatória, não há salvação. É tudo um ciclo. Luma, no final, representa mais do que sua individualização que surge com essa câmera, essa filmagem de Arnold. É, acima de tudo, uma acusação. Um grito. Luma grita, sofre na tela. E, assim, damos uma olhada no sistema cruel.


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