• Matheus Mans

Crítica: 'Destacamento Blood' é filme mediano de Spike Lee, na Netflix


Desde Ela Quer Tudo, passando por Faça a Coisa Certa e até chegar em Infiltrado na Klan, o cineasta Spike Lee trabalhou e construiu uma linguagem própria. A partir de histórias e momentos de empoderamento, o norte-americano soube conversar com uma audiência que vivem à margem nos Estados Unidos e mostrou como pode haver um cinema de resistência.


Em Destacamento Blood, novo filme do diretor que chegou ao catálogo na última sexta-feira, 12, Lee vai além. Afinal, ele pega um momento histórico importante e impactante -- no caso, a Guerra do Vietnã -- para ressignificar essa passagem e contá-la a partir da ótica de soldados negros. Eles, irônica e tristemente, lutavam por um País que, em suas terras, matavam negros.


Assim, seja na guerra ou em casa, a comunidade preta estava sendo morta de maneira "oficial". Era, claro, uma chacina. Pouco contada nos cinemas e que urgia para esse resgate histórico.


Sobre o que é 'Destacamento Blood'?


Para ressignificar a Guerra do Vietnã, Destacamento Blood mergulha na história de um destacamento americano de soldados negros do Vietnã -- formado por Paul, Melvin, Otis e Eddie. Eles, já na terceira idade, decidem retornar ao país asiático para unir o útil ao agradável. Afinal, de um lado, querem encontrar o corpo de seu antigo líder. De outro, um tesouro enterrado.


A partir disso, o quarteto -- junto com o filho de Paul, o jovem David -- adentram na selva vietnamita para cumprir tais objetivos. Obviamente que, no meio disso tudo, muitas águas vão rolar. Brigas vão surgir, desavenças, problemas psicológicos. A guerra, seja do Vietnã ou das ruas americanas, continua influenciando e se fazendo presente na vida desses quatro homens.


Além disso, é interessante notar os diferentes caminhos traçados pelo quarteto. Paul (Delroy Lindo, numa atuação arrebatadora) se tornou conservador e até mesmo eleitor do Trump. Otis (Clarke Peters) é um homem com pendências em terras asiáticas. Eddie (Norm Lewis), enquanto isso, sofre em silêncio. Infelizmente, Melvin (Isiah Whitlock Jr.) é apenas um personagem plano.

Quais os destaques positivos no filme?


Primeiramente, deve-se destacar a força da atuação de Lindo (O Nome do Jogo). O ator é a alma do filme e conta com as cenas mais poderosas do longa-metragem. Difícil ele não encontrar alguma vaga na temporada de premiações. Além dele, Peters (John Wick: De Volta ao Jogo) também conta com alguns bons momentos, mas nada que chegue próximo do protagonista.


Indo para além do elenco, a técnica de Lee salta aos olhos. Usando como referência filmes de guerra clássicos, ele brinca com enquadramentos e estilos de filmagem para trazer novas sensações e emoções dentro dessa narrativa. Como sempre, Lee mostra uma força estética interessante -- realçada, ainda por cima, pela excelente fotografia de Newton Thomas Sigel.


Por fim, vale ressaltar alguns momentos certeiros dentro da história. Um monólogo de Paul, novamente com destaque absoluto para a atuação de Lindo, é forte e assustadoramente atual. Lee, afinal, está sempre antenado. É um visionário. Assim como Faça a Coisa Certa parece ter sido feito ontem, Destacamento Blood acrescenta muito na discussão sobre Black Lives Matter.


Mas e o que tem de ruim no filme?


Infelizmente, muita coisa. Ainda que o filme seja poderoso e tenha um Delroy Lindo histórico, Destacamento Blood comete excessos. Antes de tudo, faltou uma edição muito mais apurada. O filme poderia tranquilamente ter 20 minutos a menos. Talvez trinta minutos. A primeira hora tem um excesso absurdo de gordura e deixa o filme, como um todo, cansativo e até chato.


Mas o que mais incomoda em Destacamento Blood são as facilitações narrativas no roteiro — algo que eu já tinha sentido um pouco em Infiltrado na Klan. Muitas situações são criadas sem muito contextos, outras resolvidas num passe de mágica. Fica um tanto quanto estranho, desconfortável. Parece que o time de roteiristas não estava inspirada ou com alguma vontade.


Por fim, sente-se que faltou delicadeza na hora de inserir algumas questões ou de colocar algumas metáforas na tela. Não chega aos pés do que foi feito em Faça a Coisa Certa, por exemplo, que transcende a história. É um bom filme, claro. Mas era esperado algo mais coeso e potente. Afinal, é um filme que tinha tudo para colocar gasolina nas questões levantadas hoje.

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