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  • Matheus Mans

Crítica: 'Dois Tempos' traz gostosa viagem de Yamandu Costa e Lucio Yanel


Yamandu Costa é, sem dúvidas, um dos maiores musicistas do Brasil. Violonista exímio, ele tem técnicas que deixam qualquer um boquiaberto com a habilidade nas cordas. E toda sua técnica e habilidade nasceu a partir dos ensinos do argentino Lucio Yanel, outro violonista excepcional, mas pouco conhecido. E é a relação desses dois que vemos nas telas com o filme Dois Tempos.


Dirigido por Pablo Francischelli, o longa-metragem acompanha uma viagem de motor home do Rio Grande do Sul, onde mora Yamandu, até a cidade natal de Yanel, na Argentina. Ao melhor estilo de road movies, vamos acompanhando essa jornada geográfica enquanto os dois músicos vão conversando, relembrando outros tempos, falando sobre a vida, religião e, claro, música.


Entrecortados entre cenas das viagens, os momentos de música. São várias as cenas de Yamandu Costa e Lucio Yanel tocando violão, seja em praças ou quartos de hotel. Como é comum nos casos de grandes músicos, conseguimos perceber mais deles nessas apresentações do que quando estão conversando. Vemos ali seus estilos e suas personalidades.


Acredito, infelizmente, que Dois Tempos seja um filme que não funciona para quem não conhece o trabalho de Yamandu Costa ou Lucio Yanel. É preciso ter o mínimo de vínculo com esses dois, algo que o filme de Francischelli não se empenha muito em trazer na tela. Entramos na vida daqueles dois apenas com uma pequena introdução, no comecinho, e depois vamos pra viagem.

Eu, como fã da boa música instrumental de violão, fiquei encantando com as conversas e, principalmente, com as apresentações. É interessante ver a conversa dos dois, ainda que Lucio tenha certa dificuldade em falar e se abrir -- um dos momentos mais bonitos do filme, sem dúvidas, é quando o violonista argentino fala sobre a vez que ganhou um violão de presente.


A direção fria e distante de Francischelli, que adota um estilo observador cru, ajuda esses personagens a ganharem camadas, vida, personalidade. Por mais que não haja uma preocupação em levar suas histórias para quem não os conhece, ou até para quem não tem muito gosto pela música, há presença. Melhor assim do que um filme banal sobre os dois.


Além disso, o longa-metragem se aproveita da viagem para mostrar as culturas locais e a transformação da paisagem. Os grandes campos de soja, os vaqueiros gaúchos, as amizades em cidades pequenas, os reencontros, o transeunte na praça interessado em saber mais sobre a música de Yamandu Costa. Tudo isso, sem dúvidas, ajuda a enriquecer a narrativa do filme.


Dois Tempos é um longa-metragem interessante, de narrativa pouco usual, que se vale de uma experiência geográfica para mostrar a relação dos dois. Acho, particularmente, difícil que o público geral fique realmente imerso na obra, sem ter algum conhecido prévio do que está sendo contado ali. Mas tudo bem. É raro e precioso ver encontros musicais como esse.

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