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  • Matheus Mans

Crítica: 'Druk: Mais uma Rodada' é um dos grandes filmes do ano


Mais do que criar grandes histórias, ou até mesmo grandes personagens, o mais difícil em um filme é criar cenas históricas. São aquelas sequências que, na união de bons elementos do filme todo, conseguem deixar uma marquinha na memória de quem assiste. É a cena final de Antes do Pôr-do-Sol, a apoteose de Whiplash, a dança de Cantando na Chuva, o voo contra a Lua em E.T..


E, felizmente, em 2020, já temos uma cena dessa. Em Druk: Mais uma Rodada, que tem um título em inglês bem mais atrativo de Another Round, tem uma sequência histórica nos seus minutinhos finais -- bem essa que abre o texto. Mads Mikkelsen, que repete a parceria com o diretor Thomas Vinterberg após o excepcional A Caça, se entrega, se emociona, empolga e cria.


Mas, é claro, não vamos começar pelo final. Druk: Mais uma Rodada, que levou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2021, conta a história de um grupo de professores que decide fazer um experimento controverso: beber antes de cada aula para analisar como é seu desempenho com os alunos. É claro que as coisas saem do eixo e o experimento vira um caos.


Vinterberg, que deve ser conhecido por muitos pelo drama potente em A Caça, aqui brinca com os gêneros. A dramaticidade está presente, claro: na relação ruim com a família, na tristeza que nasce com a bebida, com a tragédia. Afinal, o cineasta dinamarquês quer apontar para um problema patológico de seu país de origem, em que o álcool é naturalizado desde a juventude.

No entanto, por outro lado, Druk: Mais uma Rodada não deixa de ser uma celebração (dolorosa) à vida. E é por isso, aliás, que a cena final é tão genial. A bebida, que aqui serve apenas como escape e condutor para uma epifania maior, em que esses personagens vão se embrenhando nas contradições da própria vida. É um roteiro difícil, muito ardiloso, mas que tem seu objetivo.


Aqui, aliás, vale um contexto: Vinterberg escreveu o filme e o compartilhou o tempo todo com a filha, Ida Vinterberg. No entanto, quando estava prestes a começar as filmagens, ela morreu em um trágico acidente automobilístico -- vale assistir o discurso de Vinterberg no Oscar sobre isso. Oras, Druk: Mais uma Rodada acabou impregnado desses sentimentos e contradições do diretor.


A bebida, aqui servindo como algo figurativo, mas que também tem sua função narrativa própria, representa a vida. Os personagens, mais do que colocar álcool no sangue, estão injetando um sopro, uma brisa de existência. E isso, como Vinterberg com certeza sentiu em sua vida, está cheio de dor e sofrimento, mas também de alegria, gozo, momentos despretensiosos e mais.


Mikkelsen, que injustamente não foi indicado ao Oscar de Melhor Ator em 2021, compreende isso e faz um espetáculo na tela. Transita entre humores, se entrega. Mads Mikkelsen, um dos maiores atores em atividade hoje, vive. E nós, assim como ele no final, estamos nessa corda-bamba entre morte e vida, a alegria e a tristeza, entre a sobriedade e o destampar da garrafa.


Druk: Mais uma Rodada é, sim, uma celebração ruidosa à vida -- algo tão raro e precioso em tempos de pandemia. Conta com as particularidades do cinema de Vinterberg, cineasta forjado nas entranhas do Dogma 95, mas com uma mensagem contemporânea, verdadeira, real. O diretor sofreu, viveu, celebrou, chorou, riu. E, no final, nos entregou essa obra-prima moderna.

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