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  • João Pedro Yazaki

Crítica: 'Duna' é mais uma grande obra de Denis Villeneuve


Cena de Duna

Duna é um livro de ficção-científica e fantasia escrito pelo norte-americano Frank Herbert. Publicado em 1965, sua história se situa em um império interestelar onde famílias nobres comandam feudos planetários. O protagonista é o jovem Paul Atreides, filho do Duque Leto Atreides, que, por ordem do Imperador, aceita comandar Arrakis, um planeta desértico e hostil, onde vermes gigantes vivem sob as areias e a água é um recurso escasso.


No entanto, somente nas areias de Arrakis é possível encontrar a Mélange – a "especiaria" – uma droga alucinógena que aguça os sentidos e prorroga a vida. Simultaneamente, a Mélange é uma commodity essencial para a evolução tecnológica da humanidade. Sendo assim, Arrakis é o centro das disputas territoriais entre as famílias do império.


A história de Duna explora densas camadas de política, religião, tecnologia, ecossistema planetário e cultura. O sucesso do livro acabou rendendo algumas adaptações no cinema e na TV nas décadas seguintes. A mais conhecida é a de David Lynch (Twin Peaks e Mulholland Drive), de 1984, porém o filme foi um completo fracasso. Os produtores da época não deram a Lynch a liberdade que precisava para fazer a sua arte, algo que culminou em uma obra desastrosa da cabeça aos pés e em deboches intermináveis por parte do público.


Quase 40 anos depois, chegou a vez de um dos diretores mais conceituados desta última década, Denis Villeneuve (Blade Runner 2049 e A Chegada), entregar a sua adaptação da obra do escritor americano. O diretor canadense, conhecido por seus filmes densos, envolventes e deslumbrantes, possui o grande desafio de mastigar para o público geral as diversas complexidades do livro, além de, é claro, fazer todos esquecerem o fiasco de 1984, algo que o próprio Lynch deseja. Duna chega aos cinemas nesta quinta-feira, 21 de outubro.


O novo filme segue a mesma premissa do livro, na qual Paul (Timothée Chalamet), o herdeiro da casa Atreides, viaja com o seu pai, Leto (Oscar Isaac), a mãe, Lady Jessica (Rebecca Ferguson), e seus aliados para Arrakis, antes comandado pelo Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgård), que tomava as riquezas do planeta para si e oprimia o povo nativo, os Fremen. Após os Harkonnen saírem de Arrakis, o Duque e sua família se preparam para comandar os recursos do território e assegurar a paz com a população local. Enquanto isso, Paul se questiona sobre sonhos misteriosos envolvendo uma jovem Fremen – interpretada por Zendaya – e sobre os enigmas por trás do seu destino.

Um dos maiores desafios de Villeneuve e sua equipe foi desmembrar, para um público leigo, as diversas complexidades desse denso universo criado por Frank Herbert. Contudo, logo no início já sabemos quem são boa parte dos personagens, quais os objetivos dos Atreides, o que é Arrakis, a especiaria e quem são os Fremen e os Harkonnen. Tudo com muita clareza e objetividade, trazendo o espectador rapidamente para dentro da história sem deixar dúvidas. Sendo assim, quem não leu o livro ou não faz ideia do que Duna se trata, não tem o que se preocupar.


Aliás, o que vemos em Duna de Villeneuve é a materialização mais fidedigna possível da obra de Herbert. O diretor conseguiu extrair as melhores características da obra e trazê-las às telas do cinema com a sua própria assinatura, como fez em suas últimas produções.


O ecossistema dos planetas, a cultura Fremen, o misticismo, os costumes, os figurinos e a essência dos diálogos foram devidamente respeitados e, ao mesmo tempo, aprimorados para os dias atuais sem ficar maçante. Alguns personagens, como Duncan Idaho (Jason Momoa) e Gurney Halleck (Josh Brolin), sofreram adaptações para serem mais carismáticos, e funcionaram perfeitamente bem.


Além disso, é claro que não poderia faltar a atmosfera da ficção científica em um filme como esse. Sem surpresas, Villeneuve brilha novamente. Aqui, sua produção épica está mais deslumbrante do que nunca. Apesar de não contar com Roger Deakins, a cinematografia de Greig Fraser é de se aplaudir, assim como os responsáveis pela direção de arte e pelos efeitos visuais fizeram um excelente trabalho. Ademais, não poderia faltar a edição de som caprichosa e a trilha sonora estonteante de Hans Zimmer. Cada um desses aspectos deram corpo, vida e alma a Duna, o que deixou toda a experiência ainda mais fascinante.


Estamos tão imersos nesse universo de ficção científica, tão bem representado e detalhado, que o filme passa como um sopro, mesmo com as 2 horas e meia de duração. A história nos prende a todo momento, sendo difícil de se desconectar da tela. Por sua vez, os personagens possuem personalidades fortes. Embora não sejam tão desenvolvidos, todos apresentam características que os deixam únicos.


A propósito, o protagonista é o único que realmente possui um arco narrativo. Acompanhamos de perto as incertezas e, literalmente, os sonhos de Paul Atreides. O jovem predestinado está atrás de descobrir quais são suas verdadeiras convicções e qual é seu verdadeiro papel nessa jornada tão difícil. Verdade que essa jornada não é contada de uma forma tão inovadora, porém o filme é tão imersivo que é muito fácil comprar tudo o que ele oferece.


Cada elemento do filme é elevado à milésima potência. Vemos inúmeras cenas grandiosas, com belíssimos planos abertos recheados de detalhes. Nos diálogos, o diretor faz questão de valorizar cada uma das performances. Todos têm a oportunidade de brilhar frente às câmeras. Até mesmo Jason Momoa, que é mais conhecido pelo carisma do que pelo talento, está ótimo no papel. Todos os outros também estão excelentes; totalmente entregues aos personagens, algo que vale ouro em qualquer filme.


Portanto, Duna é tudo o que prometia ser e muito mais. É grandioso em todos os sentidos. Épico do começo ao fim, cheio de momentos de tirar o fôlego e com um final que deixa na expectativa por uma continuação, algo que definitivamente precisa acontecer. Mais uma vez, Denis Villeneuve mostra ser um dos mestres da ficção científica. Assim como em A Chegada e Blade Runner 2049, o diretor elevou o gênero para outro patamar, sendo extremamente difícil de comparar com outros filmes de sci-fi. Com muita tranquilidade, Duna é um dos melhores filmes deste ano.


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