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  • Bárbara Zago

Crítica: 'Ella e John' é retrato realista e bem humorado da velhice


A velhice reflete um estágio da vida em que presume-se carregar uma extensa bagagem de conhecimento. Quanto mais velho, mais sábio. Talvez por conta disso, não seja natural associar a terceira idade à imprudências. Afinal, a juventude existe para isso. Baseado no romance de Michael Zadooriam, Ella e John nos traz o oposto disso. A comédia dramática de Paolo Virzi (Capital Humano) conta a história de um casal que, no final da vida, resolve pegar o trailer encostado na garagem há anos e fazer uma viagem. Indo em direção ao sul, os dois vão para Key West visitar a casa do escritor Ernest Hemingway.

Protagonizado brilhantemente por Helen Mirren (A Rainha) e Donald Sutherland (Orgulho e Preconceito), o casal consegue transferir ao espectador uma dose de empatia, juntamente com o sofrimento que muitas vezes acompanha o processo de envelhecer. Enquanto Ella está enfrentando um câncer, John encontra-se lutando para manter a lucidez, apresentando sinais dos primeiros estágios de Alzheimer. Em 112 minutos, o longa consegue dosar bem o humor leve e um realismo mais doloroso, rendendo gargalhadas ao mesmo tempo que emociona a ponto de arrancar lágrimas do público. No entanto, acaba se perdendo no momento em que não aprofunda nenhum outro personagem e inclui cenas que poderiam ser facilmente descartadas.

De maneira previsível, a história vai se desenvolvendo durante a jornada no Leisure Seeker, apelido do veículo que inclusive é título do filme no idioma original. A relação do casal é bem trabalhada, especialmente na forma como é apresentada a dinâmica quase que oposta entre eles. Ella sente-se bem conversando com outras pessoas, enquanto John é mais retraído. Essa diferença de comportamento é que dá tanto o humor do filme, quanto seu equilíbrio, principalmente por seu aspecto realista. Helen Mirren deixa clara a frustração da personagem em lidar com a demência do marido, ao mesmo tempo em que tenta ser seu braço direito na maior parte do tempo.

De fato, muito do que acontece na viagem não faz o menor sentido para a história, além de não trazer nenhuma implicância quando se pensa no contexto geral. Exemplo disso é a campanha de eleição do Trump, que parece uma provocação, mas com pouco fundamento. A grande beleza do filme, porém, está no retrato da velhice de forma real e bem humorada. Pouco se fala sobre a terceira idade no cinema, quando comparada à infância, por exemplo. E acredito que isso se estenda para além do cinema, pois raramente se dá atenção para o processo de velhice. Muitas coisas nessa idade são reconhecidas como tabus. A forma como Ella e John aborda a sexualidade na velhice é bastante semelhante à uma cena de E Se Vivêssemos Todos Juntos. O espanto ao saber que pessoas no fim da vida também podem ter a vida sexual ativa é usado em ambos os filmes como recurso humorístico, mas ao mesmo tempo coloca luz sobre um assunto que não é discutido normalmente.

O longa-metragem consegue retratar bem as dificuldades e prazeres de se estar num relacionamento há muito tempo. Deixa claro como dificilmente será um mar de rosas, mas cria uma ponta de esperança no amor àqueles que assistem. Ella e John é mais emocionante do que significativo, mas seria injusto não lhe dar seu devido reconhecimento. Coloca pessoas idosas no papel principal, lidando com a proximidade da morte, e consegue tornar isso atraente para todo tipo de público. Como filme, falha em alguns aspectos bastante amadores, mas o retrato da velhice como uma espécie de juventude tardia tem sua beleza, e vale as quase duas horas de duração.