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  • João Pedro Yazaki

Crítica: Em 'O Último Duelo', Ridley Scott mira o espetáculo épico, mas acerta o drama monótono


Após ficar alguns anos sem um grande lançamento, o renomado diretor e roteirista Ridley Scott (Blade Runner, Alien e Gladiador) está de volta com o seu novo longa-metragem, O Último Duelo, que promete ser um grandioso espetáculo medieval com um elenco de peso: Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer e Ben Affleck.


Baseado em fatos reais, o filme se passa em 1386, quando Carlos VI reinava sobre a França no ápice da Guerra dos 100 anos. Conta a história de Jean de Carrouges (Matt Damon), um cavaleiro que desafia um escudeiro e seu ex melhor amigo, Jac le Gris (Adam Driver), a um julgamento por combate, acusando-o de ter violentado sexualmente sua esposa, Marguerite de Carrouges (Jodie Comer). Esse foi conhecido por ser o último duelo sancionado pelo Rei na história da França.


O roteiro é assinado por Matt Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcener, que também participam da produção ao lado de Ridley Scott. Vemos a narrativa se desenrolar em três diferentes perspectivas, com cada protagonista contando a sua versão dos fatos. Conhecemos a verdade sob a visão de Jean de Carrouges, em seguida de Jac le Gris e por fim sob os olhos de Marguerite de Carrouges. Muitas vezes, temos as mesmas situações mostradas de maneiras diferentes, isto é, com as entonações dos diálogos, os enquadramentos de câmera e as formas de atuação diferentes.


Fica muito claro que objetivo era trazer essas visões para que o espectador se envolvesse com cada personagem de forma distinta, trocando de opiniões sobre eles e seus atos, constantemente, até o final. Simultaneamente, o filme trabalha uma atmosfera épica que, através da cinematografia comandada por Dariusz Wolski, nos transporta para um denso mundo medieval formado por castelos, campos, jardins, cidades e batalhas sangrentas.


Sendo assim, o foco de Ridley Scott e dos roteiristas neste filme foi nos providenciar uma união entre o drama de alta intensidade e o espetáculo medieval épico. Não é à toa que dura quase 2 horas e meia. A grande quantidade de informação requer um espaço de tempo bastante longo para a história se desenvolver.

No entanto, é aí onde O Último Duelo derrapa de vez. No esforço de promover uma obra grandiosa, ele para no superficial. Apesar das ótimas atuações, principalmente de Jodie Comer, os personagens são extremamente rasos. Nenhum deles, nem mesmo o Ben Affleck interpretando um conde canastrão, possui carisma ou desenvolvimento o suficiente para envolver o público. Além disso, o enredo não intriga; não tem envolvimento emocional, tampouco reviravoltas ou diálogos marcantes.


Aliás, fica um alerta de gatilho por conta das cenas envolvendo abusos sexuais, que, por sinal, foram retratadas com pouquíssima sensibilidade.


Enfim, essa superficialidade se dá muito por conta do ritmo adotado pela produção. Na pressa de contar tudo o que precisa logo no primeiro capítulo – para que os próximos façam um mínimo de sentido – o filme trabalha com cortes secos, diálogos resumidos e cenas curtas. No início, a edição faz com que a história pareça confusa, mas no segundo capítulo tudo começa a fazer mais sentido. A partir daí, temos a sensação de que o filme vai engatar de vez, porém isso não acontece.


O ritmo consegue dar uma freada e algumas cenas passam a ser mais valorizadas. Entretanto, a trama continua rasa, assim como os diálogos e os personagens. Portanto, da metade para frente o filme passa a cansar. Só não fica chato pela boa performance dos atores, que deram vida a um drama vazio. No entanto, é bem provável que a sessão termine e muitos se sintam exaustos. Não é um filme que passa como um sopro.


O Último Duelo tinha de tudo para ser uma obra completa. Não há dúvidas que Ridley Scott e sua equipe sabem entregar o épico. Quem ama essa pegada medieval vai se encantar com os cenários, o figurino e com o final, que de fato é uma excelente cena de ação. Infelizmente, a produção espetacular não conversa com o resto. Vemos muitas cenas grandiosas, porém vazias e maçantes. No fim das contas, o filme pode entreter aqueles mais fissurados pelo tema medieval, mas muitos podem se decepcionar pela trama majoritariamente entediante.


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