• Matheus Mans

Crítica: 'Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar' é filmaço de 2019


Além do título exageradamente longo, é difícil encontrar algum defeito grave no sensacional documentário Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar. Aqui, o diretor Marcelo Gomes (Cinema, Aspirina e Urubus) faz o que o bom cinema deve fazer. Captura a essência de um microcosmos, coloca sua lupa de cineasta por cima e eleva o significado dessa narrativa para o cotidiano de milhões e milhões de brasileiros, que enfrentam o desmonte da Previdência e até precisam discutir sobre trabalho infantil.

E esse tal microcosmos, tão bem representado no filme, é a pequena cidade de Toritama, no agreste pernambucano. Considerada a capital brasileira do jeans, o lugar produz 20% de todo o jeans do Brasil e quase todos os seus 43 mil habitantes estão voltados, de alguma maneira, para a confecção desse tipo de roupa. E claro, sua grande maioria advém do trabalho informal, onde as pessoas ganham por peça confeccionada. Coisa de 10, 15 ou 20 centavos. É um trabalho que beira a insanidade.

No entanto, Marcelo mostra como as pessoas já internalizaram a necessidade de trabalhar sem parar. "Não tenho do que reclamar. Eu poderia ser uma daquelas pessoas da África que morrem de fome", diz uma das entrevistadas. O cineasta ainda tem sacadas estéticas que vão ampliando essa lupa e mostrando, de maneira bem mais profunda, como o trabalho informal vai se entranhando na sociedade. É o ganho por peça, trabalhos altamente repetitivos, pouco tempo para fazer outra coisa em casa.

Há inserções interessantes de Marcelo no meio dessas imagens do trabalho. Em uma delas, especialmente cativante e reflexiva, o cineasta-narrador tira o som de uma cena exaustiva de trabalho, coloca uma música clássica e tenta abafar sua ansiedade. O próprio Marcelo disse, ao Esquina, que não viu outra maneira de conduzir as entrevistas.

E assim, o diretor, que se deixa levar pela história, vai descobrindo que seu filme é mais do que um relato sobre a cidade ou sobre a forma de trabalho daquelas pessoas. É, na verdade, um documentário profundo sobre tempo e felicidade. Essa visão é ainda mais acentuada quando Gomes repousa sua câmera nos momentos que antecedem o Carnaval, festa mais esperada da cidade e quando as pessoas deixam o trabalho pra trás e partem rumo às praias de Pernambuco. Elas, nesse momento, se transformam.

Afinal, mais do que apenas viajar, moradores de Toritama vendem seus bens e pertences, conquistados a partir do trabalho duro. É o único meio que eles encontram de conseguir bancar a viagem e encontrar a felicidade por uma semana. Não importa se depois fiquem sem geladeira, sem TV, sem fogão. Para eles, o importante é o momento. Mas aí, já chega outra questão: e as preciosas horas que perdem cortando jeans? Elas também não voltam. Por que se esquecem de aproveitar a vida no resto do ano?

Há crítica pro aí dizendo que Marcelo Gomes falhou em não questionar as pessoas. Afinal, elas dão relatos fortíssimos sobre um trabalho que beira o escravo, mas o diretor continua firme em se manter inabalável. O fato é que, sem essa postura, o documentário não seria feliz em mostrar a verdade dessas pessoas. Pelo contrário: elas poderia ficar coagidas a não dizer a verdade. Dessa maneira, o diretor consegue se expressar por meio de cenas, breves comentários na narração, brincadeiras estéticas. Sem estragar os depoimentos, fortíssimos e contundentes, que mostra a realidade sem filtros.

Desse jeito, o filme consegue ir muito além do que outras produções tentaram, como Corpo Elétrico e Entreturnos. São bons filmes mas, por apostarem na ficção e no neorrealismo brasileiro, acabam enfraquecendo um pouco a mensagem final e geral.

Enfim, Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar é um filme para ser assistido no cinema, ao contrário do que algumas pessoas dizem por aí. Mais do que um documentário que retrata uma realidade, este filme de Marcelo Gomes provoca, traz debates, questionamentos. E nada melhor do que ter essa experiência de forma coletiva. Afinal, como diz Chico na música que inspirou o título longo, "quem me vê apanhando da vida, duvida que eu vá revidar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar".

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