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  • João Pedro Yazaki

Crítica: 'Eternos' tem defeitos, mas é filme de personalidade por conta de Chloé Zhao


Após o lançamento de Vingadores: Ultimato e Homem Aranha: Longe de Casa, a Marvel vem sofrendo para definir um caminho coerente para seu Universo Cinematográfico. O ano de 2021 foi bastante irregular. Enquanto as séries fizeram sucesso, os filmes ficaram devendo, tanto na opinião dos fãs quanto da crítica. Além disso, todas as produções levantaram questionamentos sobre como a Marvel apresenta seus conteúdos. Isto é, nunca a famosa 'fórmula Marvel' foi tão contestada.


A falta de mudança de tom, o fanservice desenfreado e a imensa necessidade em conectar tudo no MCU (sigla em inglês para Universo Cinematográfico da Marvel) estavam gerando muito atrito entre fãs, produtores e até mesmo os amantes de cinema, levantando algumas questões importantes, por exemplo: ainda vale a pena acompanhar esse universo compartilhado?; e os filmes/séries precisam ser todos conectados ou não poderiam ser mais independentes?


Sendo assim, Eternos veio com a promessa de dar um frescor maior para esse universo saturado, principalmente por contar com Chloé Zhao à frente do projeto. A diretora e roteirista venceu dois prêmios no Oscar por Nomadland, como melhor filme e melhor direção. Aliás, Kevin Feige, produtor executivo da Marvel, permitiu com que Zhao trabalhasse com muita liberdade. Apesar de ainda ser um 'produto Marvel', Eternos já se diferencia positivamente por contar com a visão criativa da diretora, que está escancarada em todos os aspectos do filme.


Os Eternos são heróis poucos conhecidos dos quadrinhos. Desde o anúncio, muitas dúvidas foram surgindo sobre como a Marvel iria incluí-los e que tipo de história Chloé Zhao nos iria nos proporcionar. Os Eternos são um grupo de seres imortais de um mundo distante, que viveram na Terra por séculos ajudando a humanidade a evoluir. Após concluírem a missão principal, defender os humanos dos Deviantes, seres alienígenas malignos, os heróis se espalharam pelo mundo e passaram a viver em segredo entre os humanos até os dias atuais. No entanto, quando os Deviantes voltam a ameaçar a Terra, os Eternos precisam se unir novamente e descobrir quem ou o que está por trás disso.


No início da história, já vamos entendendo os protagonistas e os coadjuvantes. A equipe de heróis é liderada por Ajak (Salma Hayek), mas a personagem principal é Sersi (Gemma Chan), que vive uma vida normal como professora de história em Londres, com o namorado, Dane (Kit Harington), como se fosse uma humana comum. No entanto, quando os Deviantes atacam a cidade, dois membros dos Eternos, Ikaris (Richard Madden) e Sprite (Lia McHugh), vão ao encontro de Sersi, ajudando-a a derrotar a criatura. A partir disso, os três decidem procurar os outros membros do grupo: além de Ajak, temos Thena (Angelina Jolie), Kingo (Kumail Nanjiani), Druig (Barry Keoghan), Phastos (Brian Tyree Henry), Makkari (Lauren Ridloff) e Gilgamesh (Ma Dong-seok).


Um dos principais desafios do roteiro é conciliar a grande gama de personagens – e o elenco de peso. Não apenas dar destaque e desenvolvimento para cada um, mas fazer com que sejam relevantes para a história. O filme consegue? Mais ou menos. Existem personagens com pouco tempo de tela e outros aparecendo até demais.

Ainda mais, deu para sentir a falta de profundidade nos personagens centrais. Embora o filme apresente contextos e backgrounds interessantes para todos, as personalidades seguem arquétipos bem simples, algo que gera a impressão desses heróis serem apenas "mais do mesmo". Entretanto, não significa algo necessariamente ruim. No geral, a dinâmica entre os integrantes funciona bem. Eles têm química entre si e são carismáticos na maior parte do tempo.


A narrativa é linear, mas vai se alternando entre os dias atuais e momentos importantes da história da humanidade, indo e voltando em flashbacks. Dessa forma, ao mesmo tempo que acompanhamos a trajetória dos heróis em se reunirem, vemos o que os levou a estarem nessa situação. Definitivamente, o filme quebra diversos padrões estabelecidos pela Marvel. Se preocupa muito mais em contar uma história do que ficar inflando ainda mais o MCU de referências e avisos sobre os próximos filmes.


Contudo, a influência da Marvel não deixa de estar presente, infelizmente de modo negativo. Existem personagens desnecessariamente fora de tom, que servem apenas para trazer um alívio cômico. Não que seja ruim, a maioria das cenas engraçadas funcionam, mas quebra totalmente o ritmo e muitas deixam de ser levadas a sério. Ademais, existem muitas incoerências que são difíceis de engolir, envolvendo, especialmente, os motivos pelos quais os Deviantes existem. A impressão deixada ao final, é a de que os seres alienígenas só tem o propósito de compor cenas de ação.


Entretanto, apesar do roteiro ter alguns furos notáveis, e a duração do filme ser excessivamente longa, não deixa de entregar uma boa história, envolvente e que traz um frescor que a Marvel tanto precisava. Muito graças a Chloé Zhao, Eternos é um dos filmes com mais personalidade desse universo. É notável o quanto a direção de cenas e atores são ótimas. A diretora traz a sua perspectiva naturalista de filmar, valorizando ao máximo cada detalhe. As atuações, os cenários abertos e fechados, o tempo de cada cena e, principalmente, as cenas de ação. Raramente veremos lutas tão bem filmadas em um filme de super-herói quanto aqui.


Além disso, a forma como a narrativa aborda diversas discussões como a evolução da humanidade, representatividade e diversidade, faz o filme se diferenciar muito de produções mais banais e que não levam a lugar algum – como é o caso de vários longas do gênero.


Portanto, Eternos é um filme que, mesmo com seus defeitos, sabe como se destacar em meio a um universo cinematográfico saturado de produções superficiais. Foi um tremendo acerto trazer alguém como Chloé Zhao, que trouxe identidade, corpo e alma a um projeto que tinha tudo para dar errado. Mesmo com a Marvel dando seus pitacos exagerados, a visão da diretora e roteirista foi essencial para que a gente tivesse uma boa história, sem que precisasse se prender tanto ao MCU. Agora, resta saber se a Marvel continuará a trazer Zhao e outros profissionais tão bons quanto porque é exatamente disso que seus filmes precisam.


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