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  • Matheus Mans

Crítica: Com Kéfera, 'Eu Sou Mais Eu' é comédia nostálgica e clichê


Kéfera, que nasceu no YouTube e se tornou uma das principais influenciadoras digitais no País, começou a alçar voos fora da internet em 2016, quando protagonizou o obscuro longa-metragem O Amor de Catarina. Foi uma espécie de teste pra ver se funcionava nos cinemas. Alguém gostou e Kéfera não parou mais de protagonizar produções para as telonas: depois veio É Fada!, Gosto Se Discute e, agora, a nova comédia brevemente biográfica Eu Sou Mais Eu, que discute os efeitos do bullying na vida dos estudantes.

A trama acompanha a vida de Camilla (Kéfera Buchmann). Atualmente, ela é uma cantora pop de muito sucesso -- uma espécie de Anitta -- e esnoba todo mundo ao seu redor. Os fãs, o namorado, a família, antigas colegas de escola. Até que uma espécie de fã com algum poder mágico a envia para o passado. Mais especificamente para 2004, quando Camilla é uma estudante destrambelhada do Ensino Médio, melhor amiga do Cabeça (João Côrtes) e alvo dos insultos da patricinha Drica (Giovanna Lancellotti).

Presa nesse passado recente, ela precisará encontrar um meio de quebrar o encanto da fã, redescobrir sua essência e, assim, conseguir voltar a ser o sucesso que ela é.

A trama do filme, escrita pela dupla L.G. Bayão (O Doutrinador) e Angélica Lopes (Divórcio) é óbvia e nem um pouco original. Parece que cineastas e roteiristas ao redor do mundo não conseguem escapar da fórmula de contar histórias sobre pessoas que sofrem bullying. São os mesmos tipos ao redor do protagonista: o amigo que é bobalhão, a patricinha bonita e malvada, as amigas que parecem não reagir, a família que não enxerga os problemas. São as mesmas questões, as mesmas figuras, as mesmas situações que já foram vistas e que, agora, se adapta ao ano de 2004 no Brasil.

Além disso, há uma mensagem de aceitação própria que é interessante e que até funciona. No entanto, há contradições no meio do caminho e o final um pouco agridoce.

A direção do talentoso Pedro Amorim (Divórcio) consegue elevar um pouco o nível do longa-metragem no geral. Ele sabe inserir alguns elementos nostálgicos, ainda que alguns deles venham em doses exageradas, para tornar a trama mais atraente para vários públicos -- o funk Melô da Popozuda e Ragatanga, do Rouge, possuem uma força tal qual uma máquina do tempo. É divertido, também, alguns elementos que Amorim insere ao longo da trama. Pontos também para o departamento de direção de arte.

Alguns dos arcos e subtramas de Eu Sou Mais Eu também funcionam. Todos envolvendo Arthur Kohl (O Mecanismo) e Flávia Garrafa (O Candidato Honesto 2) transitam entre o divertido e o emocionante. A dupla de atores funcionam bem, mesmo quando o filme não tem um bom roteiro. João Côrtes (O Segredo de Davi) e Giovanna Lancellotti (Tudo por um Pop Star) se esforçam, mas não saem do lugar. Seus personagens são rasos demais para algum voo longo. E Kéfera mostra uma clara evolução desde Gosto se Discute, mas ainda não conseguiu achar o tom ideal de suas atuações. Fica demais.

De resto, o longa-metragem tem pouco a dizer. A mensagem geral é batida e quem ler a sinopse do filme já sabe como ele irá terminar no instante seguinte. E há poucas recompensas para que o público enfrente esses 90 minutos de projeção com alegria e um sorriso no rosto. A nostalgia pode agradar. A simples presença de Kéfera para fãs. E as músicas, que agradam. Mas os que buscam boas risadas, um roteiro inteligente e fora da caixinha e boas atuações vai se decepcionar e encontrar um mais do mesmo sem muita empolgação. Kéfera ainda precisa encontrar seu caminho nos cinemas.