• Matheus Mans

Crítica: 'Fahrenheit 451', da HBO, tenta, mas não consegue emocionar


Atualmente, a HBO se posta como uma das principais concorrentes da Netflix no mercado digital de televisão e do cinema. Curiosamente, porém, as duas empresas possuem os mesmos tipos de erros e de acertos: enquanto produzem séries memoráveis, como Game of Thrones e House of Cards, as duas empresas ainda não conseguiram um filme que seja mais do que razoável em suas qualidades técnicas ou narrativas.

A nova aposta da HBO -- após os medianos O Mago das Mentiras e Paterno -- é o longa-metragem Fahrenheit 451. Adaptado do clássico livro homônimo de Ray Bradbury, o filme acompanha a rotina de uma sociedade distópica na qual a literatura não é aceita pelo governo. Para combater qualquer tipo de escritos, então, bombeiros são colocados nas ruas para identificar rebeldes e pôr fogo nas obras literárias.

Além de ser um clássico da literatura moderna, Fahrenheit 451 também é uma obra já conhecida no cinema, adaptada pelo genial François Truffaut em 1966. O objetivo da HBO, então, é compreensível: pegar uma história clássica da literatura, que possui um filme com mais de 50 anos, e deixá-la mais atual e palatável -- principalmente para o público jovem. No entanto, novamente, o canal americano volta a tropeçar e apresenta uma obra irregular.

O elenco é um dos acertos da produção que saltam aos olhos. Ainda que Sofia Boutella (A Múmia e Atômica) esteja pouco expressiva como sempre, Michael B. Jordan (Creed e Pantera Negra) e Michael Shannon (A Forma da Água) estão espetaculares. O primeiro como um bombeiro que começa a questionar os objetivos do Estado, indo fundo nos motivos da resistência, e o segundo como um homem fiel às tradições. Shannon merece um Oscar logo.

E a modernização da trama também funciona na tela. Afinal, não faz sentido investir na televisão como o principal meio das massas tendo redes sociais muito mais manipuláveis e influenciáveis hoje em dia. Nesse ponto, a obra ganha a passos largos da primeira adaptação, ainda que haja alguns exageros visíveis e que tirem a audiência do foco principal. No geral, porém, as alfinetadas e a sutil ironia à modernização funcionam e cumprem seu papel.

Além disso, o livro de Ray Bradbury tem uma narrativa um tanto quanto dispersa e pouco lógica. Assim, é inevitável que o diretor e roteirista Ramin Bahrani (do subestimado 99 Homes) crie uma história nova a partir da semente plantada pelo livro distópico. Aqui, a decisão resvala em 1984 ao mostrar um casal que se apaixona e que, com isso, passa a questionar as decisões do governo. Tinha tudo para dar certo, mas...

Boutella, como já dito, é muito fraca -- ainda não deu pra entender onde acharam o talento dela. A química entre a personagem dela e o de Jordan gera apenas faíscas e não emociona. Além disso, há momentos que a produção exige momentos grandiosos, impactantes, fortes. Mas Bahrani -- ou a HBO, vá saber -- optou por transformar o filme numa obra, unicamente, pra TV, ao contrário do que a Netflix faz. A técnica é muito pobre e sem vida.

E curiosamente, Bahrani não conseguiu reverter essa limitação ao investir em cenas e momentos mais introspectivos, sentimentais. Ele, ao longo dos 100 minutos de projeção, investe desesperadamente nos momentos grandioso -- que não existem -- e deixa de lado qualquer tipo de cena mais emocionante. Fica uma coisa confusa e irregular ao final. Um filme confuso, sem dúvidas.

Fahrenheit 451, assim, acerta em alguns pontos, como a dupla de protagonistas, algumas modernizações e até no visual escurecido, mas cheio de brilhos neon. Mas não consegue escapar das fórmulas limitadoras dos filmes para TV e a dificuldade do diretor em aceitar o que tem em mãos. Talvez seja hora da HBO se posicionar para definir se vai continuar só na TV ou buscar ir além junto com Amazon, Hulu e Disney. Desse jeito, vai ficar pra trás.

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