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  • Bárbara Zago

Crítica: ‘Fala Comigo’ é perturbador, mas faz espectador refletir


Vencedor da 18ª edição do Festival do Rio, o longa-metragem Fala Comigo traz um roteiro que mistura emoções: ao mesmo tempo que perturba o espectador, o entretém o suficiente para que exista o interesse pela continuação da história. Nela, Diogo (Tom Karabachian) é um adolescente de 17 anos cujo fetiche é se masturbar enquanto liga para os pacientes de sua mãe, a psicanalista Clarice (Denise Fraga). O rapaz, eventualmente, liga para uma das paciente (Karine Telles), que pensa estar falando com o ex-marido. A partir disso, os dois passam a ter uma relação no mínimo excêntrica.

Logo nas cenas iniciais do filme, podemos perceber Diogo se masturbando enquanto escuta a voz de Ângela, a paciente, e, assim que ejacula, guarda o esperma numa folha de papel, registrando o dia e o nome da pessoa que estava do outro lado da linha. Ainda que fetiches comumente tragam estranheza, é importante retomar que um desejo não é passível de controle. Ou seja: não existe um desejo certo ou errado, bom o mau. O que importa é como cada pessoa lida com determinado desejo, e é nisso que o filme e a história se apoia ao longo de seu desenvolvimento.

Afinal, após algumas conturbações, Diogo e Ângela vivem um romance que se estende até o final do filme. Ao mesmo tempo que o público pode se sentir incomodado com Ângela, uma mulher de 40 anos que namora um adolescente, o mesmo pode acontecer com Diogo, pela invasão de privacidade quando liga para os pacientes da sua mãe.

O diretor Felipe Sholl retratou de maneira muito estruturada essa questão: consultório da mãe de Diogo é na própria casa em que eles moram. A partir disso, passa a se questionar até que ponto isso é saudável, pois, de alguma maneira, o psicanalista acolhe o paciente ao mesmo tempo em que dá abertura à sua vida pessoal e familiar.

Fala Comigo é um filme que faz com que enfrentemos situações completamente diferentes da nossa realidade, ao mesmo tempo que nos permite enxergar o ponto de vista de cada pessoa. A relação entre Diogo e Angela, por mais desconforto que traga, ainda possui um certo carisma, sendo possível enxergar aquele relacionamento de maneira mais humana. Quando nos percebemos sendo tomados pela empatia do casal, rapidamente nos deparamos com a preocupação da mãe ao perceber seu filho se envolvendo com uma mulher mais velha que possui questões extremamente importantes a serem tratadas, como sintomas depressivos e tendências suicidas.

Todo o conceito do filme explora essa dualidade, trazendo questionamentos aos pensamentos mais conservadores presentes na sociedade vigente. O desconforto causado pelo filme está no fato de termos ideias formadas previamente, fazendo com que o encontro com o diferente pareça ameaçador. O longa se sustenta a partir dessa ideia de que existem sempre dois lados de uma mesma situação e, mais do que isso, nem sempre esses opostos são excludentes.