• Matheus Mans

Crítica: 'Green Book' é filme previsível, mas divertido e relevante


Peter Farrelly é um diretor de cinema americano que ficou conhecido por comandar comédias como Debi & Lóide, Quem Vai Ficar com Mary e O Amor é Cego -- todas pastelão e que fizeram a crítica especializada torcer o nariz. Agora, ele dá uma guinada inesperada em sua carreira com o drama biográfico Green Book, que chega forte para a temporada de premiações após levar uma quantia considerável de prêmios no Globo de Ouro. Neste seu novo filme, porém, nada de piadas sujas, personagens rasos ou situações constrangedoras. É a típica fórmula de biografias usada com humor e drama.

A trama acompanha o relacionamento de dois homens. Um deles é Tony Lip (Viggo Mortensen), um filho de imigrantes italianos que batalha para conseguir levar a vida e colocar comida na mesa. Assim, quando seu bico como segurança de um clube chega ao fim, ele acaba vendo como solução aceitar a função de motorista do pianista Don Shirley (Mahershala Ali). Ele, que compõe o outro lado desta história, é um homem refinado, culto, e que faz o impensável para um homem negro nos EUA na década de 1960: sair em turnê pelo sul do País para se apresentar em alguns dos clubes mais refinados dali.

Dessa maneira, tal qual um Conduzindo Miss Daisy dessa geração, o longa-metragem se aprofunda na relação entre Tony e Don enquanto dirigem pelas estradas americanas. Além de conversas sobre a vida, costumes e afins, eles também passam por situações de racismo e classismo ao longo do caminho, precisando buscar união entre eles para chegar ao fim. É um road movie previsível, que aos poucos vai tecendo uma trama cheia de obviedades, mas que possui um brilho muito próprio por conta de dois aspectos inesperados: o bom roteiro e a química impecável entre os dois atores protagonistas.

Sobre este último ponto, há de se destacar: Mortensen (O Senhor dos Anéis, Capitão Fantástico) e Ali (Moonlight) estão completamente encantadores, cada um ao seu jeito. Mortensen tem o trabalho mais difícil ali, de criar uma espécie de caricatura de imigrante italiano e, aos poucos, por meio de sua próprio atuação, ir desconstruindo o que ele mesmo criou em cena. É um trabalho memorável e que merecia a premiação como Melhor Ator do ano -- bem mais que Christian Bale, que resvala na imitação em Vice. Infelizmente, porém, as chances de levar a estatueta está cada vez mais distante.

Mahershala Ali, enquanto isso, investe numa atuação inicialmente contida, mas que aos poucos vai se revelando como intensa, repleta de bons momentos. Ele sabe como conduzir as cenas junto de Mortensen, criando a melhor dupla nas telonas dessa temporada -- estando anos-luz à frente de Gaga e Cooper em Nasce uma Estrela. Além disso, ele tem uma cena em específico, debaixo de uma chuva torrencial, que mostra o grande ator que ele é. Caminhando em direção à sua segunda estatueta como Ator Coadjuvante, Ali merece levar o prêmio. Mais do que em Moonlight, onde faz uma ponta.

Outra coisa que surpreende é o roteiro. Inicialmente, há o medo de que Green Book seja um novo Histórias Cruzadas, que coloca uma branca para contar a história de pessoas negras -- sendo que essa personagem, vivida por Emma Stone, é completamente dispensável para a trama. Mas não. Nick Vallelonga, Brian Currie e o próprio Farrelly vão num outro sentido. Ao invés de ser uma história puramente sobre racismo nos EUA, eles vão além e falam sobre preconceito em várias camadas, por mais que algumas vezes o tema fique superficial. Contra gays, contra imigrantes, contra pobres. Há de tudo ali.

E ao invés de se tornar um filme inchado, Green Book assume um ar feel good movie que atenua o tom geral, mas sem perder a crítica. Para isso, entra a experiência do diretor em criar boas cenas de comédia. Algumas, aqui, produzem gargalhadas muito sinceras, como uma envolvendo frango frito. Mas a alma do humor está no personagem de Mortensen. Italiano bonachão e comilão, ele possui uma presença de espírito inesperada. É muito divertido vê-lo em cena. Fora que, por conta do excelente trabalho do ator, há um forte vínculo criado com o espectador. Difícil não gostar do personagem.

Alguns problemas, porém, vão surgindo ao longo dos 130 minutos de filme. Primeiro: talvez por ser o primeiro drama de Peter Farrelly, há falta de sutileza em algumas cenas. Parece que ele quer jogar algumas situações na cara do público ao invés de só sugeri-las. Além disso, há uma fórmula que é seguida pelo roteiro e pelo diretor. Parece que o filme foi feito sob encomenda. Não há surpresas, não há momentos de virada, não há sagacidade na forma de contar essa boa história. É tradicional, é formulaica. Grande parte do público pode se sentir confortável, mas não dá para simplesmente ignorar.

Há uma clara ausência, também, de mais música na produção. O filme começa com um número musical delicioso e depois vai perdendo essa característica. Chega ao ponto absurdo de uma cena musical ser cortada no meio, sem explicação. Era melhor a edição ter ganho tempo em outros momentos. Para um filme sobre Don Shirley, foi bem quieto.

Mas, ainda assim, Green Book é uma boa surpresa dessa fraca temporada de premiações. A trama é divertida, relevante, com boas discussões. Mas, sobretudo, com atuações impecáveis de uma dupla que possui química surpreendente, que nenhum outro casal conseguiu alcançar ao longo do ano. Só por isso, o filme já merece os aplausos que está arrancando por aí. Não deve sair com mais de uma estatueta do Oscar na mão, para Mahershala Ali, mas já vale pelo bom e merecido reconhecimento.

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