• Matheus Mans

Crítica: 'Guerra Fria' é lindo e cruel retrato de amor através do anos


A Segunda Guerra Mundial mal acabou e o mundo já entra em outro conflito. Agora, porém, algo mais ideológico e político do que bélico. É a Guerra Fria, disputa que polarizou o mundo entre Estados Unidos e União Soviética, criando uma verdadeira briga entre capitalismo e comunismo. E é no meio disso que surge o casal Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig). Ele, maestro e responsável por um conjunto de canto e dança folclórica polonês. Ela, uma das integrantes mais talentosas do grupo.

Guerra Fria, novo drama do talentoso diretor Pawel Pawlikowski (Ida), acompanha a trajetória desse casal ao longo de décadas e em vários países da Europa -- Polônia, França, Iugoslávia. São cerca de quinze anos de encontros e desencontros, romances e frustrações, alegrias e tristezas, perdas e conquistas. Afinal, Wiktor e Zula se dão bem e combinam tanto que, no final das contas, se repelem. É a síntese da própria guerra que acontece, onde o planeta se encontra num conflito que caminha apenas nas entrelinhas.

Pawlikowski, talentoso como é, não se furta de construir uma atmosfera propícia para essa anti-história de amor. Assim como em Ida, há toda uma criação de época na próprio estilo de filmagem. Tudo ali é monocromático, remetendo aos filmes clássicos do cinema, e com uma tela em uma proporção quase igual ao do Instagram e a de antes do Cinemascope -- algo que Wes Anderson fez bem em Grande Hotel Budapeste, por exemplo. Cada cena é um verdadeiro quadro, uma fotografia do retrato daquela época.

A música, que acaba se tornando um dos elementos principais do filme pro conta do conjunto folclórico orquestrado por Wiktor e integrado por Zula, chama a atenção. Todo o repertório é bem escolhido, enérgico e emocionante. Representa não só a Polônia daqueles tempos, fragmentada e sofrida, como também os problemas que começam a chegar com a Cortina de Ferro e a franco domínio de Stálin sobre os países soviéticos.

Tomasz Kot (Fotograf) e Joanna Kulig (Ida, Agnus Dei) também entregam uma atuação certeira, ainda que difícil. Afinal, assim como em Boyhood, eles amadurecem na frente da tela -- com a diferença, entretanto, de que o filme não foi gravado durante esses quinze anos. É um amadurecimento muito particular e que os atores, de maneira competente, consegue transportar em gestos e postura, indo muito além apenas da maquiagem e do modo de se vestir. Atores medianos estragariam o filme a experiência.

Mas o grande ponto alto de Guerra Fria é o roteiro do próprio Pawlikowski e de Janusz Glowacki (Billboard). De maneira corajosa, a história passeia ao longo de quase duas décadas em 88 minutos. É algo que poderia ser desastroso nas mãos de alguém sem muito talento, mas que vira uma espécie de obra-prima na mão da dupla. Há muito dito nas entrelinhas, nos significados, nas ressonâncias da história de ficção na História do mundo. Roteiro genial e que pode garantir o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano.

Só perde, talvez, por conta da última cena -- forte, um soco no estômago, uma alfinetada no mundo político, uma conclusão difícil de digerir. Parece que, neste ponto, Pawlikowski vai um ponto além, ainda que seja, como todo o restante do filme, muito bem contada e filmada. É delicada, apesar de brutal. Guerra Fria, assim, se mostra como sendo um filme corajoso, poético, ousado tecnicamente e uma verdadeira obra de arte. É lento em demasia em alguns pontos e o final choca, destoando do restante. Mas não estraga mais uma experiência que Pawlikowski entrega ao seu público.

*Filme assistido durante a cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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