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  • Matheus Mans

Crítica: 'Hereditário' é tenso, cruel e horripilante


No começo do ano, quando Um Lugar Silencioso chegou às telonas e arrebanhou uma série infinita de boas críticas e aceitação de público, muita gente começou a tecer comparações com outros sucessos recentes do horror, como A Bruxa, Ao Cair da Noite e afins. Mas convenhamos, são tipos de terror bem diferentes. O filme que dá continuidade de verdade à essa linhagem é o excelente Hereditário, que estreia nesta quinta, 21.

O bom desse filme é saber pouco sobre a história. Então aqui vai um resumo bem simplificado: a matriarca de uma família morre e, no velório, muita gente estranha e que não é conhecida dos parentes aparece por lá. O problema real, porém, é que depois do falecimento da mulher, coisas bizarras começam a acontecer com a família, composta por Annie (Toni Collette), Peter (Alex Wolff), Charlie (Milly Shapiro) e Steve (Gabriel Byrne).

Para quem busca um terror ao estilo de Anabelle ou, até mesmo, Invocação do Mal, vai se decepcionar. Hereditário, dirigido pelo estreante em longas Ari Aster, deixa as coisas obscuras, por trás dos panos. O drama familiar que se abate na família -- principalmente por conta de um acontecimento subsequente à morte da avó -- toma conta das telas e o elemento do horror fica apenas coadjuvante numa história sobre luto e perda.

Nesse processo, algumas coisas vão se destacando. A principal é a atuação arrebatadora de Toni Collette, que tinha apenas feito participações nos horrores A Hora do Espanto e Krampus: O Terror do Natal -- ambos péssimos. Ela consegue juntar o desespero de uma mãe perdendo o controle sobre seus filhos enquanto vê a estrutura familiar ruindo. Se ela não for lembrada no Oscar de 2019, não há justiça no mundo. Que atuação!

Alex Wolff (Jumanji: Bem-Vindo à Selva), Gabriel Byrne (Mais Forte que Bombas), Ann Dowd (The Handmaid's Tale) e a estreante Milly Shapiro também estão ótimos em cena -- principalmente Milly, que segue um caminho bem parecido com a personagem de Regan (Millicent Simmonds), de Um Lugar Silencioso. Mas eles acabam apagados por conta da entrega total de Collette.

Outra coisa que se destaca nesse horror que fica nas sombras -- que será, novamente, taxado de "pós-terror" -- é a boa direção de Ari Aster. Assim como Robert Eggers fez em A Bruxa e Trey Edward Shults fez em Ao Cair da Noite, é criado um clima claustrofóbico no filme, de tensão crescente. É quase impossível relaxar nas mais de duas horas de projeção de Hereditário. A sugestão ao horror está sempre ali, escondida e pronta pra surgir.

A grande linha divisória do filme -- que irá separar os que irão amar e odiar o longa-metragem -- está no roteiro, que cria algumas reviravoltas pouco usuais e que, aí sim, fogem quase que totalmente do que o público está acostumado com o horror. Com situações bem encaixadas e favorecendo um punhado de jump scares inteligentes, a história vai sendo trilhada para seguir um caminho grandioso e de conclusão arrebatadora.

Além disso, o filme aposta em duas coisas que podem tirar a pessoa do filme: há cenas grotescas, de violência quase gráfica, que são inesperadas e que ficam um longo tempo na tela. Ari Aster queria chocar e conseguiu. O longa-metragem também provoca um sentimento de que o filme está recaindo a todo o tempo no psicológico dos personagens, podendo provocar reações diversas ao longo da projeção. É um caminho arriscado, mas que é acertado.

Assim, quem comprar a história e embarcar no processo criativo de Hereditário, vai ter uma experiência interessantíssima no cinema -- aliás, veja o filme na tela grande! O som do filme ajuda muito a entrar no clima -- que pode ser comparada, sim, com alguns grandes clássicos do gênero, como O Bebê de Rosemary e O Exorcista. Afinal, é um filme forte, corajoso e original. Tem potencial para ser lembrado a longo prazo como um clássico.