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  • Matheus Mans

Crítica: 'Homem Onça' explora o projeto de sucateamento do Brasil


O Brasil é um projeto de sucateamento. Desde a chegada dos portugueses, quando as riquezas do País começaram a ir para terras distantes. Agora, por meio das privatizações, quando políticos com interesses escusos vendem estatais a preço de banana. Foi assim com a Vale e será assim, a qualquer momento, com os Correios. E finalmente um filme fala sobre isso.


Homem Onça, de Vinícius Reis (‘A Cobra Fumou’), que também assina o roteiro, fala sobre a vida de um homem (Chico Díaz) em dois momentos. Em um deles, é o gerente de projetos ecológicos de uma estatal com projetos premiados até fora do Brasil. Está feliz no emprego. Em outro momento, vemos ele morando no interior, longe da família, vivendo a aposentadoria forçada.


Essa dicotomia dolorosa, que atingiu profissionais da antiga Vale do Rio Doce e futuramente nos Correios, mostra um Brasil que simplesmente não consegue valorizar as pessoas, pensando apenas no caráter econômico e financeiro da coisa -- esquecendo totalmente do valor humano agregado em empresas desse tipo. É o envio de dinheiro pra fora, empobrecimento de dentro.

Diaz, um monstro em cena em uma das melhores atuações do ano, ajuda a ampliar a compreensão dessa dor. Ele passa por modulações de humor ao longo da história que vão retratando as dificuldades impostas na vida desse homem profissional e correto em seus valores e que ama o que faz -- mas que vê tudo desmoronando de uma hora para a outra.


Reis, enquanto isso, vai inserindo elementos em cena de um Brasil que parece resistir. É o colega de trabalho do protagonista, vivido por Emílio de Mello, que sonha em abrir sua própria consultoria numa sala enorme. É a muda de café que resiste bravamente na sala com ar-condicionado. São os projetos apaixonados do personagem de Díaz, relegados ao esquecimento.


No entanto, no final do dia, sempre surge algo maior. O dinheiro, o empresário, o estrangeiro. E leva tudo embora. Homem Onça, infelizmente, não é um filme otimista. Traz dor, desamparo, desaconchego. Mas tem um papel importante de alerta sobre o que está acontecendo com o País de maneira quase ininterrupta. O que Reis faz aqui é um cinema-denúncia. Grito ao vazio.


Ainda que peque em algumas passagens do roteiro, principalmente na metáfora pobre de Díaz com a onça, o longa-metragem é um daqueles acertos refrescantes (ainda que dolorosos) do cinema nacional em 2021. Mostra que mesmo com o sucateamento (olha lá, de novo!) do cinema nacional, ainda há forma de resistir. Podemos resistir todos, como Brasil. É só buscar o caminho.


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