• Matheus Mans

Crítica: 'Instinto' explora limites entre abuso e paixão

Atualizado: Jan 27


Nicoline (Carice van Houten) é uma psicóloga experiente que começa um novo emprego em uma instituição penal. Ali, ela entra em contato com Idris (Marwan Kenzari), um estuprador em série com fortes traços de psicopatia -- afinal, mais do que abusar sexualmente das vítimas, ele as conquista e faz sofrer. A partir daí, os dois iniciam um relacionamento além da terapia no divã.


Neste ponto, o ótimo filme Instinto, selecionado pela Holanda para o Oscar 2020, começa a explorar os limites entre paixão e abuso. Até que ponto a relação entre a psicóloga e seu paciente é relacionamento e estupro? Qual o limite? Quem abusa de quem? Há, primeiramente, um abuso de autoridade? Ou será que ela é unicamente a vítima, ao cair no papo de Idris?


São questionamentos complexos, delicados e nem um pouco simples de resolver -- eu próprio senti incômodo, no parágrafo acima, em sequer suspeitar das intenções da mulher abusada. Mas são esses assuntos, e essa complexidade temática, que a diretora estreante Halina Reijn se propõe a abordar nos poucos mais de 90 minutos de projeção. Não é algo simples de digerir.


Afinal, assim como o badalado Rainha de Copas, há questionamentos que vão além do que fazemos no dia a dia. As barreiras são mais frágeis, as divisões menos cristalinas. Você, como espectador, fica o tempo todo tentando entender o que acontece na tela. A paixão e o abuso se misturam, como se fosse um só. No entanto, como é natural, o crime sexual salta à tela.

Para conter isso, Reijn se vale de recursos estilísticos para não deixar que a paixão entre esses dois personagens suma e, assim, continuar a instigar o espectador. A luz que incide na protagonista Nicoline se contrasta com a dor em seus olhos. Ao mesmo tempo, o ardor na hora do sexo se confunde com o medo, os gestos acanhados, as lágrimas que escorrem.


Acentuando essas dúvidas, Carice van Houten (a Melisandre de Game of Thrones) constrói uma personagem viva, complexa e atormentada. A confusão é visível em seu olhar a cada fala, atitude, gesto. É incrível a capacidade da atriz em adicionar camadas às personagens. Kenzari (Aladdin) está mais apático, mas ainda assim traz uma mistura de medo, furor e paixão.


Umas sobras de roteiro, infelizmente, atrapalham um pouco o desenvolvimento dos personagens e acaba tirando certa força do filme -- a relação da protagonista com a mãe, por exemplo, nunca é bem explicada. São pequenas coisas, no roteiro de Esther Gerritsen (Dorst), que sumiria em mãos mais experientes. Mas, como dito anteriormente, é filme de estreante.


O final, forte e que reafirma todas essas dúvidas que Reijn planta durante a projeção, ficará martelando na sua cabeça por horas, quiçá dias. Instinto, afinal, não é um filme qualquer, que some depois dos créditos. Sua complexidade e sua força narrativa ficam nas discussões. Pena que não pegou uma vaga em Melhor Filme Estrangeiro. Merecia um espaço por sua ousadia.

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