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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Jardim dos Desejos' é mais um acerto de Paul Schrader



Narvel (Joel Edgerton) ama plantas. Sua vida, como jardineiro na propriedade de uma rica viúva, é cuidar do jardim e fazer com que o espaço fique ainda mais agradável aos olhos dos visitantes. A perfeição é a palavra de ordem. Até que, de um dia pro outro, tudo muda.


Jardim dos Desejos, novo filme de Paul Schrader (do genial First Reformed) que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 30, é basicamente a história desse homem que vê seu mundo de perfeição ruir. Tudo após a chegada de Maya (Quintessa Swindell), a sobrinha-neta da proprietária e que está envolvida em problemas — no relacionamento e com drogas.


Schrader é um cineasta que gosta de cutucar a ferida. De incomodar. Não apenas cria personagens no limite, seja como roteirista ou diretor, como também questiona o limite do mundo que embala suas histórias. No final, quem está entrando em um ciclo de insanidade? O personagem em questão ou o mundo? O que é, enfim, a sanidade? Como ser são?


No seu novo filme, Schrader logo de cara brinca com a relação do público com o protagonista. Narvel esconde um segredo, muito bem escondido, que abala a confiança de qualquer um com o jardineiro. Schrader nos faz, novamente, questionar nossos limites.


Afinal, Narvel está em um turbilhão. Nós, como audiência, não conseguimos compreender aquele personagem, tampouco é possível entender o tom de clemência que o filme abraça. Parece, por uma boa parte da narrativa, que Paul Schrader está encarando o jardineiro como um herói, um mocinho em redenção. Mas, aos poucos, isso é desconstruído.



Nas encruzilhadas das raízes das árvores, Narvel age de maneira tortuosa. Os fins ainda justificam os meios, principalmente quando há a compreensão de que não existe necessariamente bondade em Jardim dos Desejos, mas sim uma necessidade de se provar — como outra pessoa, como alguém com novos ideais, como alguém que mudou, enfim.


Imageticamente, Schrader não cansa de nos dar pistas do que essa história é: o homem fragmentado no espelho (remetendo à Taxi Driver, mais de uma vez, que tem Schrader como roteirista), a passividade que não acompanha a história pregressa, a falta de decisão quando uma situação surge. Narvel age aos poucos, discreto, evitando que algo ali surja.


Tudo isso acompanhado de atuações de gala: Edgerton (O Presente) brinca com os limites morais e éticos de seu personagem; Quintessa (Adão Negro) sabe trazer uma personalidade mais explosiva, sem freios e com remorsos; enquanto Sigourney Weaver (Alien) rouba a cena como a patroa sem escrúpulos, em uma atuação que merecia ter sido reconhecida na temporada. O trio, quando em cena, causa impacto. Move a narrativa.


Depois disso tudo, de colocar o espectador contra a parede e questionar se Nerval merece clemência, Schrader dá o golpe fatal no último minuto, no último diálogo, quando mostra que não existem ex-extremistas. O que pode acontecer, na verdade, é uma transferência de ideias: o extremismo sai do campo humano e parte para outras áreas, em outras frentes.


Em tempos de ideias extremistas, Schrader tem algo bem claro a dizer aqui: é possível perdoar um extremista, mas nunca esquecer; é possível se transformar, mas nunca mudar.

 

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