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  • Matheus Mans

Crítica: 'Jojo Rabbit' é filme que ganha força nas entrelinhas


Após o cultuado O Que Fazemos nas Sombras e o pop Thor: Ragnarok, chegou a hora do cineasta neozelandês Taika Waititi fazer seu filme endereçado ao Oscar. Jojo Rabbit, longa-metragem que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 6, abocanhou seis indicações na edição do prêmio 2020 -- dentre elas, Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante.


E não é pra menos: Waititi, em Jojo Rabbit, fez poesia. Na trama, acompanhamos a história de Jojo (Roman Griffin Davis), um menino alemão fanático pelo nazismo na Segunda Guerra. No entanto, sua percepção sobre o regime vai mudando quando ele entra em contato com Elsa (Thomasin McKenzie), uma judia escondida na sua parede pela mãe (Scarlett Johansson).


Com uma direção de arte que lembra -- e muito -- o estilo do cineasta Wes Anderson, Jojo Rabbit é aquele filme que se fantasia de aventura bonitinha e infantil para passar mensagens atuais, fortes e necessárias. Num primeiro momento, há um estranhamento com o fanatismo cego de Jojo e, principalmente, do fato de Hitler (Waititi) ser o amigo imaginário do garoto.


Mas o roteiro, escrito pelo próprio cineasta neozelandês, vai quebrando essas ideias precipitadas com sacadas delicadas. Num momento, por exemplo, Jojo pede que a judia Elsa desenhe o lugar onde judeus vivem -- o menininho, afinal, é doutrinado que esse povo vive como animais. Eis que, no final da cena, a moça entrega um desenho da própria cabeça de Jojo.


São pequenas sacadas narrativas e históricas que vão surgindo aqui e acolá, dando vitalidade e força para Jojo Rabbit. O ridículo, que ganha forma nas figuras de Hitler, do Capitão Klenzendorf (Sam Rockwell) e do policial Deertz (Stephen Merchant), mostra a visão do cineasta sobre o período e, principalmente, sobre governos fascistas que fazem lavagem cerebral em seus povos.

Dessa maneira, Jojo Rabbit se faz extremamente atual. Por meio dessa aventura quase infantil na Segunda Guerra Mundial, ganha força para falar sobre o hoje, o que nos cerca e governantes.


O elenco, é claro, ajuda a criar essa noção -- se as atuações não estivessem alinhadas, o filme poderia ser uma piada de mau gosto. O estreante Roman Griffin Davis é um acontecimento. Merecia uma vaguinha em Melhor Ator. Waititi se sai bem na tarefa de criar o Hitler imaginário, assim como Sam Rockwell se dá bem na figura de um capitão nazista cheio de manias e tipos.


Só não dá pra entender muito bem a indicação de Scarlett Johansson em Atriz Coadjuvante como a mãe de Jojo. Ela está bem e tudo mais, mas não é um papel marcante, nem muito desafiador. Uma cena com a atriz, aliás, por um triz não cai no ridículo -- para quem já assistiu, é aquela em que ela "encarna" o pai de Jojo. Outras atrizes mereciam mais essa vaga no Oscar.


Por fim, é perceptível que o longa-metragem tem uma "barriga" no meio da história. As coisas não avançam muito e o roteiro de Waititi fica dando voltas. A agilidade, o bom humor e a sagacidade dos primeiros minutos quase desaparecem. E voltam só por volta do começo do segundo ato, quando as coisas se tornam interessantes de novo. Uma quebra de ritmo clara.


Mas é aquilo: Waititi fez poesia num filme difícil, delicado e cheio de meandros complicados. Jojo Rabbit é um filme com forte potencial de ser um marco na cultura pop e se tornar queridinho com o passar dos anos. E é justo: elenco, direção, roteiro e direção de arte estão alinhados em um só sentido, promovendo o bom cinema. Como é gostoso ver roteiro bem escritos em ação.

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