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  • Matheus Mans

Crítica: 'King Kong en Asunción' é experimentalismo vazio e sem graça


O experimentalismo no cinema é mais do que bem-vindo. Afinal, é a partir de criatividade narrativa e visual que encontramos novas formas de contar histórias, saindo do lugar-comum que o cinema se encontra já nos últimos anos. No entanto, tudo tem um limite. Com um filme, é preciso contar uma história. Quando ela não existe, a existência dessa película em si entra em xeque: qual a finalidade dessa produção? É isso que me pergunto com King Kong en Asunción.


Dirigido e roteirizado por Camilo Cavalcante, o longa-metragem tem um ponto de partido simples: um matador de aluguel (Andrade Júnior) decidiu deixar essa vida para trás de vez. O contrário de Comeback, com o genial Nelson Xavier. Aqui, esse homem idoso, de visual marcante, não quer voltar para a profissão. Pelo contrário. Agora, seu desejo, embrenhado na América do Sul, é deixar as memórias de lado e encontrar a filha, de quem se afastou.

Apesar da boa ideia, e de uma cena inicial mais do que marcante, encontramos apenas vazio em King Kong en Asunción. Cavalcante aposta em uma trama que, aparentemente consciente, expulsa o espectador de dentro da história -- quase como se fosse uma memória que o protagonista quer esquecer. Mas o empuxo que nos leva para fora do longa-metragem é forte demais: as cenas são vazias de qualquer significado, enquanto uma insuportável narração em off vai explicando com excesso didatismo o que está acontecendo na tela. É chato demais.


Não dá para dizer que falta dinamicidade. Essa, afinal, não é a proposta do longa-metragem. Mas falta ao filme que ele aconteça, que ele exista. Um matador de aluguel aposentado, andando por aí, com uma narração explicando tudo que está acontecendo na tela e que poderia ser traduzido em imagens, não é o bastante para o filme ser um filme. King Kong en Asunción acaba mirando no vazio e encontrando uma espécie de marasmo que nos deixa totalmente desinteressados.


Pelo menos Andrade Júnior, em seu último trabalho para o cinema, está excepcional em tela -- forte, constante e o responsável pelas três únicas boas cenas do longa-metragem. De resto, uma bobagem colossal. Difícil acreditar que um filme assim, sem propósito e sem rumo, conseguiu arrebatar o prêmio máximo do Festival de Gramado em 2020. Experimentalismos, como dito, devem ser exaltados. Mas este é apenas um filme vazio, que não se sustenta nunca. Uma pena.


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