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  • Matheus Mans

Crítica: 'Kursk' é filme multinacional sobre tragédia russa


No alvorecer dos anos 2000, já distante das disputas da Guerra Fria, a Rússia estava desmontada. Seu arsenal de guerra começava a enferrujar de desuso, alguns veículos foram vendidos para pagar contas e o que sobrou definhava. Era o caso do submarino Kursk. Apesar da alta tecnologia embarcada, problemas técnicos afligiam toda a tripulação da embarcação.


Até que, em 12 de agosto de 2000, problemas com os mísseis do Kursk explodiram metade do submarino. O restante, com cerca de 30 tripulantes salvos, ficou afundado no fundo do oceano. O que fazer? Como sair daquela situação? Essa é a trama de Kursk, longa-metragem multinacional dirigido por Thomas Vinterberg (A Caça) e que chega ao cinemas nesta quinta, 9.


Dirigido por um dinamarquês e com atores ingleses, belgas, franceses, suecos e russos, o filme não se propõe a ser um culpabilizador único dos russos. Pelo contrário: até por seu caráter multinacional, mostra como o mundo, por vezes, caminha nas mesmas direções e tem culpa no cartório em tragédias que, mesmo acontecendo em locais específicos, são de cunho globalizado.


Por isso, não adianta ficar reclamando dos poucos atores russos ou do uso do inglês em cidades russas e dentro do submarino. Vinterberg quis ir além de regionalismos ou da exatidão étnica.


Kursk, porém, não exime os russos de alguma culpa, é claro. Assim como na excelente minissérie Chernobyl, há um exame do nacionalismo exagerado e forçado por parte de generais e comandantes do exército russo e que acaba tendo efeitos catastróficos na população. No caso deste filme, este sentimento é centralizado no nonagenário ator Max von Sydow (O Sétimo Selo).

E assim, a partir desses dois aspectos centrais, Vinterberg acerta em cheio. Globaliza tragédias ao mesmo tempo que mostra problemas na conduta dos russos -- algo que parece ser contraditório, mas que se apresenta na tela de maneira delicada e sensorial. Além disso, o bom cineasta deixa a tragédia seguir o seu rumo, sem excessos de direcionamento ou emoções.


O elenco, composto pelos mais diferentes tipos de atores, está coeso. Matthias Schoenaerts (Ferrugem e Osso) é um bom capitão de submarino, cheio de defeitos, dores e desafios. Léa Seydoux (Azul é a Cor mais Quente) encarna bem a personagem que sofre sem saber o que está acontecendo. E Colin Firth (O Discurso do Rei) vai direto ao ponto com um personagem frustrado.


O ponto de inflexão de Kursk, porém, está na instabilidade da narrativa. Por mais que seja interessante ver essa multiplicidade de discursos em cima de uma tragédia histórica, a mudança exagerada de visão sobre o caso acaba cansando. Tem o submarino, o britânico que quer ajudar, o general russo soberbo, a esposa sofredora, o russo desesperado, e por aí vai.


São muitas visões sobre um mesmo assunto e que, em determinado momento, acabam se aglutinando demais. Você, como espectador, quer ver mais do que está acontecendo no submarino e acaba cortando pra burocracia política. Nada mais frustrante. No final, a sensação é de que teria sido um filme mais interessante se focado apenas na claustrofobia do submarino.


Kursk, assim, é um longa-metragem interessante, com uma visão interessante do cineasta Thomas Vinterberg. No entanto, o excesso de personagens, cenários e situações acaba diminuindo o impacto e fazendo com que o filme se torne apenas mais um do mesmo, nesse mar de opções sobre submarinos. Uma proposta mais fechada poderia ter sido mais feliz.

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