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  • Matheus Mans

Crítica: 'Licorice Pizza' é bom filme de Paul Thomas Anderson, mas com ressalvas


Não há dúvida alguma de que Paul Thomas Anderson (ou, simplesmente, PTA) é um dos maiores cineastas em atividade. Mais do que criativo, o diretor é daqueles contadores de histórias natos. Ele sabe como falar sobre pessoas e, acima de tudo, relações. Sangue Negro, Boogie Nights, Magnólia e Trama Fantasma estão aí para mostrar toda sua habilidade com câmera e roteiro. No entanto, o novo Licorice Pizza, indicado ao Oscar e estreia desta quinta-feira, 17, decepciona.


Dirigido e roteirizado por PTA, o longa-metragem conta a história de Gary (Cooper Hoffman), um rapaz de 15 anos que se apaixona perdidamente por Alana (Alana Haim), uma garota judia de 25 anos. A partir daí, Paul Thomas Anderson se vale de uma estrutura de road movie, sem necessariamente ser um filme de estrada, para contar detalhes da relação desses dois. Ainda que não se movam no espaço, afinal, estão passando por emoções fortes e avançando no tempo.


Ele, de um lado, não consegue disfarçar a paixão que sente por Alana. Está se descobrindo e, acima de tudo, descobrindo o mundo ao redor. Ela, enquanto isso, tenta escapar dessa sina de namorar um garoto mais novo. Se faz durona, mas acaba sofrendo quando as coisas saem de seu controle. No caminho, personagens como Jack Holden (Sean Penn), Jon Peters (Bradley Cooper) e outros vão ajudando (ou atrapalhando) esse casal a encontrar um caminho, enfim.


O primeiro grande problema disso já está na sinopse: essa paixão e relacionamento entre um rapaz de 15 e uma garota de 25 -- que chega a afirmar, também, que tem 28. Como isso é naturalizado no cinema de hoje? Tudo bem que PTA fala recorrentemente de relacionamentos abusivos, como Trama Fantasma e o superestimado Embriagado de Amor. Mas pedofilia (e sim, é pedofilia) vai um pouco além. É algo que, hoje em dia, não pode mais passar em branco.

Sem falar de piadas racistas que surgem aqui e acolá, unicamente para fazer graça com japoneses. Ainda que o personagem que faça as tais piadas seja inspirado em uma pessoa real, as tais brincadeiras não desenvolvem, não vão além, não servem para nada além de fazer graça com uma etnia, um sotaque, uma forma de falar. Se ainda servisse para algo na história, poderia ser algo a ser compreendido. Mas não: ficou jogado, sem propósito e sem qualquer serventia.


Por fim, fechando os pontos negativos, há a falta de química entre Hoffman e Alana. O casal não passa nada. Não sei se influenciado pelo desconforto do filme naturalizar uma relação abusiva, mas em momento algum torci pelo final feliz dos dois. E olha que ambos estão bem em cena, com boas performances. Faltou mais envolvimento entre os dois, mais verdade. Talvez até mesmo os dois atores tenham sentido algum desconforto dada a situação que o roteiro coloca.


De resto, há algumas boas coisas. PTA, como sempre, conta bem a história -- apesar da falta de química e os problemas já falados. Dá para acompanhar bem o filme, sem se abalar pela duração de quase 2h15. O filme passa sem grandes solavancos. Além disso, destaque absoluto para a recriação de clima e de ambientação, que consegue colocar o espectador dentro dos anos 70. Paul Thomas Anderson mereceu, apesar de tudo, a indicação como Melhor Diretor no Oscar.


Enfim: Licorice Pizza é um filme que tem seus atrativos, mas que se sabota com uma trama repleta de problemas. Não olha para o passado com os olhos de hoje, mas romantiza coisas que já deveriam ter ficado para trás. Se fosse o filme de mais um cineasta no mercado, passaria batido. Mas, por ser de PTA, fica aquele gostinho amargo na boca de que poderia ser melhor, mais potente, mais marcante. Até dá para gostar. Mas dificilmente será realmente memorável.

 

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