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  • João Pedro Yazaki

Crítica: ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’ encanta, mas é um filme para fãs


Zack Snyder sempre foi considerado um diretor e argumentista polêmico. Sua cinematografia exagerada, o roteiro inflado e o tom sombrio em seus filmes dividem o público constantemente. Ao ser escolhido pela Warner para comandar o universo cinematográfico da DC, cujo objetivo óbvio era bater de frente com a Marvel, Snyder decide seguir o caminho contrário da concorrente. Trouxe histórias mais sombrias, com personagens melancólicos, a fim de dar um tom mais "adulto" a super-heróis como Batman, Superman e Mulher-Maravilha.


Depois dos polêmicos O Homem de Aço (2013) e Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), a Warner não estava contente que seu universo compartilhado nos cinemas não estava engatando como gostaria. A visão de Snyder estava gerando mais ruído do que atração por parte do público geral, algo que fez com que Warner e DC tomassem providências. Logo, o que já era ruim, ficou ainda pior. Durante a produção de Liga da Justiça, uma tragédia envolvendo Zack e sua família acontece, e a Warner vê a oportunidade perfeita para afastar o diretor para tentar dar uma outra cara ao filme.


Desta vez com Joss Whedon na direção, o mesmo que dirigiu os dois primeiros Vingadores, a tentativa de trazer um filme mais divertido e colorido acabou se tornando um dos longas mais desconexos e bagunçados que já vimos no cinema. Portanto, Liga da Justiça de 2017 foi um fracasso total e o universo cinematográfico da DC se afundou de vez. Por isso, muitos fãs indignados passaram a implorar pelo lançamento da versão de Zack Snyder, o Snyder Cut.


Depois de alguns anos, por conta da pandemia da Covid-19 e do lançamento de seu novo serviço de streaming, HBO Max, a Warner decide se aproveitar mais uma vez: convida Zack Snyder a finalizar a sua versão de Liga da Justiça e disponibilizá-la na plataforma, o que deixou milhares de fãs loucos para finalmente assistirem a visão verdadeira do filme que não conseguiram ver no cinema. Após quase 1 ano depois do anúncio, Liga da Justiça de Zack Snyder chegou nas plataformas digitais com a promessa de ser um presente para quem é apaixonado pelo universo criado pelo diretor. Contudo, no final das contas, o filme conta a mesma história que vimos em 2017, ou seja, genérica, porém um pouco mais aprofundada - já que conta com 4 horas de duração - e, é claro, com a identidade que todo mundo conhece de Zack Snyder elevada à milésima potência.


Assim como vimos em 2017, Bruce Wayne e Diana Prince querem honrar o sacrifício de Superman e unir um grupo de super-heróis com o objetivo de salvar o mundo da invasão de Steppenwolf, um ser de outro planeta, e seu exército de Parademônios. Steppenwolf foi enviado por Darkseid, que se proclama um conquistador de mundos e está dedicado a dar à Terra o mesmo fim que outros tiveram em suas mãos. Os heróis Flash, Aquaman e Ciborgue se unem ao Batman e a Mulher-Maravilha para evitar a destruição global e criar, enfim, a Liga da Justiça.


Sim, é a pura verdade que a versão de Whedon é péssima em todos os sentidos. No entanto, ele seguiu praticamente o mesmo conceito de narrativa que Snyder planejava antes. Embora tenha cortado muita coisa para caber em 2 horas, a premissa do filme de 2017 é basicamente a mesma que vimos agora em 2021. No entanto, agora temos um filme com o dobro do tempo, com mais espaço para desenvolvimento, e com muito mais personalidade.

O estilo de Zack Snyder não agrada a todos, porém é certo que ele se demonstra um cinematógrafo bastante competente. Diferente do original, o novo filme tem uma linguagem artística conceituada. De fato, o filme traz uma identidade que se encaixa perfeitamente na proposta que o diretor quis dar para a narrativa. Ele conseguiu mascarar a história fraca com seus shots espetacularizados. Inúmeras vezes, vemos cenas com pouquíssima informação sendo transformadas em belos videoclipes, algo que deixa o filme até mais divertido em alguns momentos. De fato, existem cenas marcantes como o Flash usando o seus poderes para salvar uma mulher em perigo, a luta do Steppenwolf contra as Amazonas, que agora está melhor em todos os aspectos, e o flashback mostrando a invasão de Darkseid na Terra há milhares de anos, na qual heróis se uniram para lutar e impedir a conquista, também está muito bacana. Em momentos específicos como esses, o filme entretém.


Contudo, quando começamos a pensar mais a fundo, percebemos o quanto falta de estrutura e desenvolvimento. Sua primeira hora e meia é um bom exemplo: quando os personagens estão sendo apresentados e, teoricamente, desenvolvidos, há um compilado de cenas inseridas uma em seguida da outra, sem qualquer preocupação com a coesão. Os acontecimentos não se interligam de forma orgânica, o que dá essa sensação de filme arrastado como muitos estão reclamando. A respeito dos personagens, espera-se que em um filme com 4 horas de duração, eles teriam um ótimo desenvolvimento, mas não é o que acontece.


Mais uma vez, Snyder erra na caracterização desses heróis. O que temos por aqui é um Batman inútil, que tenta fazer um papel de liderança, mas no fim das contas, por não ter superpoderes, se mostra sempre o mais fraco do grupo. Sabemos muito bem que ele pode fazer muito mais do que lutar; uma Mulher-Maravilha desprovida de emoção com a atuação pífia de Gal Gadot; um Aquaman despreocupado sem qualquer motivo, sendo mais Jason Momoa do que Aquaman; um Flash caricato, estilo Homem-Aranha do universo Marvel, mas unidimensional, sem muito a oferecer fora seu humor. Por fim, o Superman surpreendeu, pois não apresentou metade de suas convicções mostradas em Batman vs Superman. Aqui, ele serve para fazer as lutas de Dragon Ball e só - e para usar uma roupa preta, sem propósito algum. Por incrível que pareça, Steppenwolf e Ciborgue são os únicos que possuem motivações básicas para terem uma trajetória mais cativante. Por mais simples que sejam, seus arcos narrativos impactam diretamente na história, ditando o ritmo e dando uma profundidade mínima.


Aliás, ao longo do filme, vemos frequentemente os heróis tomando decisões que não estão de acordo com suas características. A Mulher-Maravilha, por exemplo, salva várias crianças de um assalto a um banco usando apenas os punhos. Porém, ao melhor estilo Zack Snyder, ela simplesmente desintegra o último integrante dos bandidos e ainda destrói uma parte significativa da estrutura do banco na frente de uma dúzia de crianças. Existe uma outra cena durante o começo, na qual o Aquaman, rei dos oceanos, tira a sua camiseta regata e a joga no mar, fazendo o mesmo com uma garrafa de whisky. Também ao melhor estilo Snyder, com câmera lenta e música de fundo.


No geral, o filme se resume ao diretor reutilizando cenas do filme anterior e as adaptando para o seu tom, além de incluir várias que foram deletadas. Por sinal, a maioria delas desempenham a famosa função de encher linguiça. São apenas algumas que oferecem algo realmente diferente, como as que envolvem o Ciborgue e o epílogo.


Obviamente, Liga da Justiça de Zack Snyder é infinitamente superior ao original, ou seja, pelo menos o diretor conseguiu fazer o mínimo. Por mais contraditório que seja, Snyder deu corpo e voz a um filme que, se não fosse por sua identidade, sua linguagem estética, seria tão vazio quanto o de Joss Whedon. Portanto, basta abraçar a proposta e desconsiderar as incoerências que é bem possível se divertir. Todavia, o filme provavelmente irá funcionar apenas para quem curte os super-heróis da DC ou para quem aprecia os trabalhos prévios de Zack Snyder, uma vez que foi produzido a pedido dos fãs e feito para eles, quase que de forma exclusiva. Além disso, considerando como o diretor aborda seus filmes, Liga da Justiça é um de seus melhores trabalhos.

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