• Giulia Costa

Crítica: 'Mademoiselle Paradis' é filme impactante com ótimas atuações


O que você faria se tivesse que escolher entre seu maior dom e a sua visão? Este é o dilema da protagonista de Mademoiselle Paradis, drama dirigido pela austríaca Barbara Albert (Os Mortos e os Vivos), uma história verídica sobre a talentosa pianista do século XVIII, Maria Theresia Paradis (Maria Dragus). A jovem ficou cega por volta dos três anos de idade e passou por diversos tratamentos, mas a falta de sucesso na medicina tradicional levou seus pais a recorrerem a Franz Anton Mesmer (Devid Striesow), médico responsável pela terapia do magnetismo.

Graças ao tratamento alternativo, Maria Theresia finalmente iniciou o seu processo de cura. No entanto, a partir do momento em que sua visão começou a progredir, sua habilidade musical começou a se desfazer, gerando sofrimento para a própria personagem e conflitos intensos com seus pais. Para sua família e conhecidos, ela era um estorvo que nunca poderia se casar e seu talento era o única chance de um futuro “respeitável” na alta sociedade de Viena que possuía.

O filme se passa em 1777, em plena Áustria da era Mozart, então é natural que a sociedade da época fosse ainda mais misógina que a atual. Entretanto, as cenas que expõem esse aspecto não deixam de ser impactantes e contribuem para debates ainda bastante atuais, como o papel social da mulher, violência sexual e como as mulheres também podem contribuir para a perpetuação e manutenção do machismo. Todas são vistas como inferiores e naturalmente menos habilidosas que homens em atividades prestigiadas, sendo a própria protagonista apontada como uma exceção pelo seu dom musical.

Contudo, devido a sua doença e por não se encaixar nos padrões de beleza vigentes, Maria Theresia é humilhada e tratada como uma forma de entretenimento em diversas ocasiões, sendo até mesmo obrigada a provar em apresentações que estava conseguindo enxergar novamente.

Gênero não é a única temática significativa e atual abordada no longa-metragem. A narrativa é tão bem desenvolvida que consegue explorar e evidenciar vários tópicos relevantes - como deficiência, discriminação por classe social e ciência - sem se tornar caótica ou superficial.

A atuação marcante de Maria Dragus (A Fita Branca) possui o equilíbrio perfeito ao expressar a força e determinação da personagem, assim como seu lado vulnerável e sobrecarregado pelos próprios sentidos. É um dos grandes destaques do filme, que é repleto de atuações excelentes e figurinos impecáveis. Além disso, é preciso destacar as cenas envolventes centradas no rosto da protagonista quando ela toca piano ou quando passa por situações adversas. Esses enquadramentos permitem que o público se conecte ainda mais profundamente com as diversas emoções que Maria Theresia Paradis experimenta.

Mademoiselle Paradis é sobre uma mulher que tenta encontrar seu lugar em um mundo preconceituoso e hostil, ao mesmo tempo em que tenta conquistar sua liberdade apesar de suas limitações. Uma história pouco conhecida, mas inspiradora e importante de ser contada.

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