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  • Matheus Mans

Crítica: 'Mais que Especiais' é filme emocionante, mas de roteiro inchado


Nunca é simples retratar autistas nos cinemas. Afinal, é muito fácil cair para chavões ofensivos e um tanto quanto preocupantes -- como está acontecendo com Music, longa-metragem indicado ao Globo de Ouro 2021. No entanto, a dupla francesa Olivier Nakache e Éric Toledano (de Intocáveis) acertou na medida ao retratar pessoas com autismo em Mais que Especiais.


Protagonizado por Vincent Cassel e Reda Kateb, o longa-metragem acompanha a história de dois franceses dedicados a fazer o bem. Malik (Kateb) ajuda jovens à margem da sociedade a entrar no mercado de trabalho. Por outro lado, Bruno (Cassel) cuida de jovens com autismo severo e emprega esses jovens recuperados por Malik como cuidadores no dia a dia.


A partir daí, acompanhamos todas as narrativas que surgem a partir do cotidiano de Bruno e Malik. É um dia a dia frenético, lembrando um pouco o que a dupla de diretores fez em Samba, mostrando todas as idas e vindas do trabalho de ambos. É difícil não mergulhar nessa proposta, compreendendo e sentindo na pele o que esses dois personagens tão ímpares passam por ali.


Faltou ao roteiro dos próprios Nakache e Toledano dar um pouco mais de níveis à personalidade dos dois personagens -- mais pontos negativos na personalidade, fraquezas e coisas do tipo. Ambos parecem máquinas, quase que trabalhando sem parar. Não entramos direito na intimidade. Ficamos quase que como moscas limitadas ao horário de trabalho de cada um deles.

Cassel e Kateb, felizmente, acabam tapando esse buraco narrativo com atuações sob medida. Ainda que Kateb (A Hora Mais Escura) esteja um pouco mais apagado, funciona dentro das limitações do próprio personagem e nas interações com o jovem Fabrice (Djibril Yoni). Mas Cassel (Cisne Negro) está um acontecimento. Verdadeiro, potente, forte. Levanta todo o filme.


Os atores que interpretam os jovens tutelados por Bruno (muitos deles realmente autistas) também são acontecimentos. Principalmente Benjamin Lesieur, que interpreta o jovem Joseph.


O único problema mais grave reside no roteiro. É inchado demais, confuso demais. Se atropela. São muitas histórias: a de Bruno, a de Malik, a dos jovens autistas, a dos jovens à margem, romances, a inspeção, idas e vindas. Fica repetitivo dentro de seus próprios exageros. Até um pouco chato. Mas tudo bem. A emoção do filme continua viva, assim como propósito na história.


Enfim, Mais que Especiais é um filme... especial, com desculpas pela repetição de palavras. É singelo quando precisa, delicado quando necessário, urgente em discussões contemporâneas. Tem seus problemas e suas frustrações, complicando o ritmo geral da narrativa. Mas a mensagem permanece. E é difícil não se encantar por esses dois franceses tão marcantes.

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