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  • Matheus Mans

Crítica: 'No Olho do Furacão' faz de 'Twister' uma obra-prima


Furacões e tornados nunca renderam grandes filmes nos cinemas. Afinal, ainda que Twister tenha virado um hit nos anos 90, sua qualidade é, no mínimo, questionável. Há, também, os recentes -- e fraquíssimos -- No Olho do Tornado, Tempestade e alguns outros filmes de catástrofes. Agora, um outro longa-metragem entra nessa nada gloriosa lista: o vergonhoso No Olho do Furacão, de Rob Cohen (Daylight e Velozes e Furiosos).

O centro da trama se passa no Tesouro Americano. No mesmo dia que um furacão está varrendo os Estados Unidos, um grupo de bandidos, liderado por Perkins (Ralph Ineson), decide levar todo dinheiro que está prestes a ser consumido por um triturador. Eles, claro, rendem todos os guardas e ainda conseguem infiltrar algumas pessoas dentro do órgão oficial americano. A partir daí, inicia-se uma corrida para tirar o dinheiro dali a tempo.

O começo já dá o tom do filme. Dois irmãos ficam presos numa casa durante um tornado enquanto o pai vai tirar o carro da estrada. No momento que a coisa começa a ficar feia, Cohen resolve dar um destaque para os ventos do furacão. E o que aparece na imagem? Uma caveira. Sim, não basta o cineasta criar uma cena melodramática e pouco verossímil, como também resolve colocar a caveira de Voldemort logo no começo da história.

O pior de tudo é que essa cena inicial -- brega, mal dirigida, com péssimos atores -- só é começo de uma trama que só piora. Vamos começar pelo óbvio: não há o mínimo de sensatez na história. Muitos podem argumentar que é um filme de ação e que, por isso, não é preciso ter o pé vincado na realidade. Tudo bem, não precisa se ater totalmente aos fatos. Mas é vergonhosa a trama que é criada aqui, sem o mínimo de identificação com o público.

A relação entre os personagens também pende para o absurdo. Em meio ao caos, há até espaço para discutir sobre mudanças climáticas, jogos de baseball e outras coisas sem importância alguma.

E pra quem chamou o roubo de La Casa de Papel como sendo irreal, não perde por esperar por ver a orquestra de absurdos comandada por Cohen. Nada no assalto faz sentido, nada parece real. O espectador ainda não consegue se identificar com ninguém: nem com os ladrões, nem com os dois mocinhos (Toby Kebbell e Maggie Grace) que tentam impedir o roubo a qualquer custo. Ninguém é interessante, ninguém ganha camadas.

Obviamente, os atores também não se levam a sério. Difícil, aliás, entender o que parte deles está fazendo nessa bomba. Ralph Ineson (A Bruxa, Soundtrack) é a síntese de todos os assaltantes de banco. Não há o mínimo de toque pessoal no personagem. É uma coisa genérica. Toby Kebbell (Black Mirror, Planeta dos Macacos: A Guerra) irrita até na maneira de falar. Não está confortável. E Maggie Grace (A Escolha) é fraca e esquecível.

O final do filme -- que, muitas vezes, é a redenção de histórias sobre catástrofes -- causa uma vontade genuína de levantar da cadeira e ir embora do cinema. Qualquer noção de realidade some, coisas acontecem fortuitamente e só pra agradar o público e entregar uma história reconfortante, sem ousadias e sem qualquer desenvolvimento. Até o visual do tornado vira piada. Assim, perto de No Olho do Furacão, Twister vira uma obra-prima.