• Matheus Mans

Crítica: ‘O Bar’, na Netflix, se perde em meio a caos narrativo


Quando estreou em 2014, o filme episódico argentino Relatos Selvagens se tornou sucesso instantâneo de crítica e de público. Com uma narrativa ácida que faz comédia com o lado mais obscuro do ser humano, o longa-metragem conquistou um espaço no coração das pessoas. Depois de Relatos Selvagens, muitos filmes tentaram reproduzir o mesmo espírito de comédia argentina. O longa espanhol O Bar, que acaba de chegar à Netflix, é mais um que entra nesta lista.

A trama é aparentemente simples: um boteco em Madrid está lotado de pessoas, de todos os tipos e propósitos. Tem a mocinha que está aguardando para um encontro, um mendigo que busca seu almoço, pessoas passando a negócios. Tudo vai bem até que um homem sai do local e é baleado com um tiro na cabeça. Do nada. Outro homem sai do bar para tentar ajudar e tem o mesmo destino. A partir daí, o resto dos clientes institui que não devem sair do local de jeito algum.

Para sustentar os personagens, que são exigidos quase como numa peça de teatro, diretor Álex de La Iglesia (do mediano Balada do Amor e do Ódio) convocou um elenco de primeira. Dentre os destaques, Mario Casas (do ótimo Um Contratempo), Blanca Suárez (de A Pele que Habito), Carmen Machi (Peles) e Jaime Ordóñez (Rainhas). Todos muito bem, com destaque para Blanca, que consegue construir camadas profundas para a sua rasa e formulaica personagem.

O cineasta, porém, não consegue sustentar o filme com a premissa e ótimo elenco. Afinal, difícil fazer um filme com mais de 100 minutos em apenas um cenário e com poucas respostas -- até hoje, apenas Deus da Carnificina conseguiu fazer isso com perfeição e sem erros. La Iglesia, porém, não é Polanski. Ele enche o filme de reviravoltas que nem sempre fazem sentido para o filme que está passando na tela. É o que faltava para transformar O Bar em um filme genérico e sem propósito.

Não que o longa-metragem espanhol seja uma catástrofe geral. Pelo contrário: O Bar tem qualidades a serem admiradas, como a ótima produção investida no design, a trilha sonora interessante e, como já apontado, o elenco afiado. No entanto, os excessos de mudanças na história tornam o filme cansativo, sem foco narrativo. Personagens mudam a todo o instante de personalidade apenas para trazer novos elementos à trama -- logo depois eles já voltam ao normal.

Além disso, há uma ausência exagerada de respostas. Culpa do caos narrativo que impera no filme: o roteira cria uma reviravolta interessante. No entanto, a trama não consegue se explicar. Assim, o roteiro cria micro-reviravoltas dentro da história para desembocar em uma outra reviravolta que, novamente, não deverá ter explicações. Vira uma salada. Não há um momento de unidade na trama. Não há um momento de clareza. E aí, toda ótima premissa é jogada no lixo.

A conclusão, que deixa de ser um drama recheado de diálogos e questionamentos para ser mais um thriller, até é interessante e pode animar o espectador. Mas aí é só parar para pensar em tudo que se passou no longa-metragem e fica evidente os erros e buracos na trama. E o sentimento de ser contemplado pela história acaba se esvaindo. No final, o longa se torna apenas uma sombra de Relatos Selvagens. Quer bons thrillers espanhóis? Vá ver a obra de Oriol Paulo. Vale mais a pena.

REGULAR

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