• Matheus Mans

Crítica: 'O Filme da Minha Vida’ é delicada obra do cinema nacional


Delicadeza é um dom extremamente raro, que poucos possuem. É difícil agir com ternura e tranquilidade nos acontecimentos da vida, que corre ao nosso redor e nos fazem agir de um jeito brutal, ácido, feroz. Mais difícil ainda é transpor a delicadeza para obras de arte, seja na literatura, na música ou no cinema. Ainda mais em tempos como este que passamos, onde tudo de errado acontece. Por isso, não é preciso pensar duas vezes antes de afirmar: que maravilha é O Filme da Minha Vida. Delicado, poético, sensível. Tudo que as pessoas precisam ver.

Dirigido por Selton Mello e baseado em um romance do chileno Antonio Skármeta, O Filme da Minha Vida conta a história de um rapaz (Johnny Massaro) que se vê num momento complicado de sua vida: o pai (Vincent Cassel), um francês apaixonado, sumiu no mundo ao retornar para Paris; a mãe (Ondina Clais), depois da partida, viu um vento gelado cobrir sua alegria e os sorrisos minguaram. Enquanto isso, a vida não vai pra frente: está apaixonado por uma bela garota do colégio (Bruna Linzmeyer), mas não sabe se o romance existe. A vida se tornou um dilema.

Assim, ele tenta desatar este nó: começa a investigar mais sobre a vida de Luna, a garota, e a sondar as pessoas ao seu redor para entender as coisas do coração. Ao mesmo tempo, tenta entender o que o destino reservou ao seu pai, com quem nutria uma relação forte e que acabou sendo consumida após o sumiço. Para isso, ele busca informações com a mãe, sempre fechada a comentar o assunto, e com Paco (vivido pelo próprio Mello), um bronco da região e que sempre foi muito amigo do pai do rapaz. A partir daí, temos o filme e o resto é história.

Mello, mais uma vez, mostra que tem total controle sobre as produções que dirige. Primeiro, ele não deixou se levar pela história de Skármeta, bem mais concisa e sem elementos de impacto para uma adaptação. Pelo contrário: o cineasta brasileiro imprimiu sua marca, dando mais desenvolvimento para a personalidade de Tony Terranova, o rapaz, e para as pessoas que o cercam. Além disso, mudou o nome de todas as personagens e até o título da história -- que, no original, é bem fraquinha e não tem muito sentido para a história que está sendo contada.

Ele ainda mostrou coerência em suas obras: assim como em O Palhaço e, de maneira mais moderada, em Feliz Natal, ele se concentra em contar histórias de pessoas que buscam um amadurecimento pessoal. Que estão numa jornada para se descobrirem e para entender melhor como é a vida. Além disso, ele também faz resgate de atores: enquanto trouxe Moacyr Franco e Jorge Loredo em O Palhaço, aqui ele emociona com a participação de Rolando Boldrin, que faz um maquinista que “sabe de tudo”. Lindo ver Boldrin nas telas, quinze anos depois.

O elenco, aliás, é um acerto à parte: Johnny Massaro, o protagonista, tem uma inocência e um olhar puro que poucos atores conseguiriam trazer à tela. Deixou seu personagem no ponto. Além disso, Vincent Cassel e Ondina Clais conseguem mostrar dificuldades de suas vidas de um jeito discreto, mas que imprime coerência. A dupla Bruna Linzmeyer e Bia Arantes (que faz Petra, sua irmã) não tem a mesma intensidade, mas ajudam a trama com elementos teatrais, como olhares enviesados e atitudes que despertam curiosidade e até um certo mistério.

O grande acerto e que deixa o filme tão belo está na dupla Mello e Walter Carvalho, que trabalha na fotografia de O Filme da Minha Vida. Enquanto aquele primeiro imprime estes elementos aqui citados, este traz cor ao filme, sempre em tons de sépia e que lembram um pôr-do-sol. O trabalho é de encher os olhos. Além disso, vale ressaltar outros dois pontos: a trilha sonora e a produção de época. Contando com clássicos como Coração de Papel, as músicas emocionam, ainda que mal colocadas em alguns pontos. Enquanto isso, o cenário de época desperta nostalgia imediata.

O grande acerto do filme, porém, está em seu final: apesar de ter algumas grandes viradas de trama, O Filme da Minha Vida mantém a delicadeza, a sutileza. Não sai fazendo grandes mudanças de ritmo ou de narrativa. Pelo contrário: ele deixa o belo prevalecer, fazendo com que grandes momentos se tornem apenas passagens na vida das personagens -- algo que, nas mãos certas, se tornam momentos memoráveis do cinema, como em Cinema Paradiso ou até mesmo em O Palhaço.

Além disso, Selton Mello escapa do grande mal do cinema nacional hoje: o didatismo. Ao invés de fazer uma conclusão mastigada, ele entrega um final que faz a pessoa pensar por dias na trama, criando um exercício de imaginação delicioso e que funciona, de verdade, em poucos filmes -- como A Origem, de Nolan, ou As Pontes de Madison, com Meryl Streep e Clint Eastwood. O diretor abaixa a cabeça, dá passagem para o espectador e causa uma ponta de esperança no cinema nacional. É preciso fazer mais coisas assim e menos coisas como Ninguém Entra, Ninguém Sai.

O Filme da Minha Vida, enfim, não tem este nome à toa. Não é o filme da minha vida, mas deve ser o candidato a ocupar o posto para muitas outras pessoas -- até na sessão para a imprensa tinha gente chorando ao final da projeção, algo raro de se ver. É delicado, sutil e bem produzido. Mais um passo na consolidação da trajetória de Selton Mello como diretor e um refresco para a audiência dos cinemas em um tempo que Transformers domina as nossas bilheterias.