• Matheus Mans

Crítica: 'O Homem Invisível' é terror que choca e faz refletir


Não adianta. Os melhores filmes de terror sempre são os que vão além do susto fácil. São os longas que trazem algo a mais, uma reflexão embarcada, um sentimento natural. Nos últimos anos, Jordan Peele chocou e fez pensar com Corra! e Nós, filmes repletos de crítica social. Agora, O Homem Invisível chega com um terror remodelado sobre abuso sexual e emocional.


Na trama, acompanhamos a história de Cecilia Kass (Elisabeth Moss), uma mulher aprisionada em sua própria casa pelo marido abusivo e controlador. As coisas mudam completamente, porém, quando ela foge de sua "prisão" para viver uma nova vida. E aí que as coisas ficam estranhas: enquanto tenta se adaptar, o agora ex-marido é encontrado morto, vítima de suicídio.


Seria essa a libertação final de Kass? Nada disso. Na mente da protagonista, nada passou de uma armação. O marido, que é considerado uma lenda da ótica, conseguiu desenvolver alguma tecnologia que o deixa invisível. Dessa forma, mesmo após a "morte", o homem abusivo continua a assombrá-la. E agora da pior maneira possível: sem ninguém mais conseguir enxergá-lo.


Dirigido por Leigh Whannell (do excelente Upgrade), O Homem Invisível sabe como trabalhar no limite entre tensão, suspense e terror. Sem nunca pender para a breguice, o longa-metragem esculpe suas possibilidades em cima do clássico monstro -- do ótimo filme de 1933 e do livro de H.G. Wells. O filme não é refém de si mesmo ou de uma fórmula, como A Múmia. Ele se liberta.


Aliás, um P.S.: mais do que o filme com Tom Cruise sobre a entidade egípcia, este longa-metragem está bem mais preparado para iniciar o tal "dark universe". Vamos ficar de olho.

A interpretação do roteiro de Whannell, acerca desse personagem que já foi origem para dezenas de releituras e adaptações, é acertada -- como ninguém tinha pensado nisso? é uma pergunta que fica martelando na cabeça. Tudo ali trabalha em prol da metáfora, do significado oculto do personagem. É difícil não compreender, emocionalmente, o que está passando ali.


No entanto, ao mesmo tempo, o cineasta não esquece de trazer elementos do gênero para coroar a narrativa. Sustos pouco fáceis, um suspense afinadíssimo e uma tensão frequente estão bem alinhadas. A trilha sonora de Benjamin Wallfisch (Blade Runner 2049), apesar de original, comete erros e a música, dessa maneira, acaba tendo mais atenção do que deveria.


Elisabeth Moss (de The Handmaid's Tale) faz sua melhor interpretação nos cinemas desde Complicações do Amor. O sofrimento e a dor da personagem são sentidos a cada passo. Por fim, o fato dela ser desacreditada por todos mais próximos ajuda a dar uma tônica ainda maior ao longa. Difícil não se colocar no lugar da personagem, seja você homem ou mulher.


Os aspectos técnicos também destoam da maioria das produções de terror que vemos por aí. Não há um investimento em jump scares baratos, tampouco em cenas violentas despropositais. Tudo está alinhado em um único sentido, em um único objetivo. Pena que o orçamento baixo, de US$ 7 milhões, acabe refletindo nos efeitos especiais -- principalmente no final da produção.


Algumas coisas ficam com uma sensação de mal acabadas e tiram o espectador da trama momentaneamente. O mesmo vale para breves furos de roteiro, que podem passar batidos.


No geral, dessa forma, O Homem Invisível já é uma das grandes surpresas de 2020. Bem estruturado, criativo, coeso, com objetivos bem delimitados. Não deixa o terror pra trás, mesmo quando evoca os aspectos mais óbvios da metáfora sobre abuso sexual, físico e emocional. E faz com que o público, de fato, entenda a dor e o sofrimento daquela protagonista tão verdadeira.

#Crítica #Terror #Cinema #Filme