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  • Matheus Mans

Crítica: 'O Homem que Matou Don Quixote' é filme morno e errático


"Após 25 anos de produção e 'desprodução'", ironiza Terry Gilliam na abertura e apresentação da comédia O Homem que Matou Don Quixote. E não é pra menos: o filme, um dos maiores objetivos de vida do cineasta de Brazil e Os 12 Macacos, ficou 25 anos entre idas e vindas por conta de abandono do elenco, processo dos investidores, acidentes nas gravações, doença do diretor e outras infelicidades mais. O resultado, porém, não compensa tanto esforço: consegue ser ainda mais errático, morno e confuso do que o restante da obra cinematográfica do cineasta americano e ex-Monty Python.

A trama acompanha, basicamente, a viagem onírica de Toby (Adam Driver), um diretor frustrado de comerciais. Seu grande sonho era ser um cineasta de sucesso, dando sequência a uma carreira que começou com a filmagem independente da vida de Don Quixote. Sem rumo e sem satisfação, ele acaba voltando para suas origens e, como em um sonho, embarca numa aventura ao lado de um sapateiro espanhol (Jonathan Pryce) que, após interpretar o cavaleiro da triste figura no longa independente, passa a achar que é o próprio Don Quixote e que Toby, alto e magro, é o fiel escudeiro Sancho Pança.

Assim como nos outros longas de Gilliam, a confusão se mistura com a certeza, a realidade com os sonhos, a felicidade com a tristeza, o riso com a angústia. É uma características do cineasta e que funcionou algumas vezes, como no cultuado Brazil, no forte Os 12 Macacos e no dramático O Pescador de Ilusões. No entanto, talvez por essas confusões dos bastidores relatadas no início do texto, a trama de O Homem que Matou Don Quixote se arrasta, parece que não vai a lugar algum e diverte apenas em momentos dispersos. Não há emoção, não há força na história que está sendo contada.

O erro que mais salta na tela é a própria montagem de O Homem que Matou Don Quixote. É compreensível que Gilliam queria misturar sonho e realidade para criar no espectador a sensação de confusão do próprio Quixote, sem saber direito o que está ocorrendo de fato. No entanto, o roteiro, escrito pelo próprio Terry Gilliam e por Tony Grisoni (Minha Nova Vida), não valoriza esse estilo de edição e acaba por criar um filme sem pé nem cabeça, remendado e pouco funcional. O sono é a única 'emoção' desperta.

O que acaba por elevar levemente o tom da narrativa são as atuações e ambientação. Sobre este último ponto, é lindíssima a recriação da história de Miguel de Cervantes na tela. Tudo bem feito e bem pensado. Jonathan Pryce (O Que de Verdade Importa) está espetacular no papel de Quixote, encarnando com força o cavaleiro da triste figura. Vem dele os momentos mais divertidos. Adam Driver (Infiltrado na Klan) está apenas operante e com uma interpretação suave, como sempre, mas que ajuda a fazer contraponto na figura histérica e exagerada de Dom Quixote. Boa dupla nas telonas.

Mas isso, obviamente, não é o bastante para conter o marasmo e a chatice de O Homem que Matou Don Quixote. Pode ser que alguns se divirtam com o filme por gostarem do estilo onírico de Gilliam ou, ainda, por preferirem uma história sem lógica, mas que valoriza a situação, a piada. No geral, porém, difícil defender essa empreitada homérica de Gilliam. Talvez os bastidores, de fato, tenham atrapalhado e feito o longa-metragem ter resultado abaixo do esperado. A expectativa, infelizmente, não foi atingida. Bomba de Gilliam.

* Filme assistido durante a cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.