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  • Matheus Mans

Crítica: 'O Menino que Queria Ser Rei' se perde nos exageros


Algumas lendas se tornam tão presentes no imaginário popular que se cristalizam de forma quase indelével. É o caso do ladrão-herói Robin Hood, sobre o qual falamos aqui no Esquina após o lançamento do filme sobre o personagem no ano passado. Outra figura que entrou para o imaginário é Rei Arthur. Recentemente, o consagrado diretor Guy Ritchie deu sua visão sobre a lenda. Ficou divertido, mas desgastado. Agora, mais um filme tenta criar uma nova reinterpretação do clássico e, dessa vez, agradar crianças e adolescentes. É O Menino que Queria Ser Rei, do diretor e ator Joe Cornish.

Desta vez, porém, no lugar da montanha de músculos de Charlie Hunnam ou da sagacidade de Sean Connery, um rapaz franzino. É Louis Ashbourne Serkis, filho de Andy Serkis e ator de algumas pontas em filmes como Mogli: Entre Dois Mundos e Alice Através do Espelho. Como Merlin, o veterano Patrick Stewart (Logan) faz rápidas aparições. Quem assume de fato a batuta -- ou a varinha? -- é o estranho adolescente Angus Imrie (A Espiã). Além dele, Tom Taylor (A Torre Negra) assume o papel de Sir Lancelot e a novata Rhianna Dorris vira Lady Kaye, versão feminina do clássico Sir Kay.

Ou seja: um elenco pouco usual e insperado, remetendo um pouco ao que Rick Riordan fez em Percy Jackson. Alta mitologia sendo vivida por crianças e pré-adolescentes. Porém, a originalidade e essa sensação de "algo novo" fica só no elenco. A trama vai para um reciclagem banal da história. Nela, o adolescente Alex (Serkis) encontra a tal espada de Excalibur numa construção. A partir daí, ele é consagrado como herdeiro de Arthur e passa a ser perseguido pela bruxa Morgana (Rebecca Ferguson). Para vencê-la, precisará da ajuda de Lance, Kaye, Merlin e do atrapalhado Bedders (Dean Chaumoo).

A trama, sem dúvidas, é divertida, apesar de batida. Um filme pronto para a Sessão da Tarde e que deve agradar as crianças e pré-adolescentes entre 9 e 13 anos, que vão se encantar com a mitologia da história e querer sair por aí com uma espada de plástico pra derrotar monstros imaginários -- e aí, no caso, mais para as crianças de nove anos, é claro. O visual é bem feito e divertido, há algumas boas sacadas visuais -- uma espécie de sereia, por exemplo, que sempre recupera Excalibur -- e boas piadas, que geralmente partem do divertido Bedders. Pais e filhos devem encontrar diversão ali.

No entanto, O Menino que Queria Ser Rei tem um problema básico para tramas como essa. Mesmo sendo uma aventura infantojuvenil, ele se permite ter cerca de 120 minutos. É muita coisa. Afinal, esse tipo de história preza pela simplicidade e estender a duração para além de 90 ou 100 minutos é pedir pro público perceber a fragilidade da trama. Conta Comigo tem 89 minutos. Curtindo a Vida Adoidado, 103. Mesma duração para Esqueceram de Mim. Poucos casos passam disso e se dão muito bem -- o único fresco na memória é Os Goonies, com 114 minutos. Não funciona ir muito além disso.

Neste filme do ainda inexperiente Joe Cornish, que dirigiu e roteirizou, o excesso é o pecado. A duração de duas horas faz com que a trama fique cansativa e todos problemas saltem da tela. Há, por exemplo, excesso de sub-tramas. Tem a jornada de Alex, o relacionamento com Lance e Kaye, os problemas com o pai, os problemas com a mãe, o início de amizade com Merlin, a lutra contra cavaleiros, as trapalhadas de Bedders, a criação da mitologia de Arthur. É muita coisa ancorada numa trama sem fôlego. Ao final, o espectador percebe isso e, aos poucos, vai se cansado da história.

Além disso, o elenco formado por apenas atores jovens e quase inexperientes vai mostrando suas fragilidades. Serkis parece que não consegue sair de uma mesma fisionomia, Taylor e Dorris não convencem e Dean Chaumoo diverte aqui e acolá. Os veteranos Rebecca Ferguson (Missão: Impossível - Efeito Fallout) e Patrick Stewart são prejudicados pelo roteiro e não saem do óbvio. Só Angus Imrie que consegue entrar em seu personagem com força. É possível acreditar que ele é Merlin, mesmo sendo um garoto imberbe e com cara de atrapalhado. Ele se esforça e o roteiro, às vezes, ajuda.

Isso, ao final, mostra como a decisão de colocar atores mais velhos no filme Percy Jackson e o Ladrão de Raios não foi uma decisão totalmente errada. Podia ter sido pior.

Ao final, então, fica só a lembrança de um filme gostoso de assistir, com algumas coisas divertidas, e que vai encaixar bem na Sessão da Tarde -- apesar do visual exageradamente maligno de Morgana. O excesso de tramas, a duração excessiva e as atuações pouco memoráveis fazem com que O Menino que Queria Ser Rei se torna apenas mais um filme que tenta recriar a lenda do Rei Arthur. Vai ficar perdido naquele emaranhado infinito de listas sobre a lenda. Difícil ir pra frente. Só se melhorarem, e muito, o que querem contar. Tanta coisa assim, de uma só vez, amarga a experiência.