• Matheus Mans

Crítica: 'O Ódio que Você Semeia' é soco no estômago forte e inesperado


Num primeiro momento, o longa-metragem O Ódio que Você Semeia parece ser uma curiosa e estranha dualidade. Afinal, o título remete aos faroestes de John Wayne, Clint Eastwood e companhia. Já o visual da história, baseado num livro best-seller, lembra qualquer outra produção juvenil recente, como Com Amor, Simon e coisas do tipo. E que grande surpresa inesperada é o soco no estômago que a história, aos poucos, disfere no público.

A trama acompanha a vida de Starr Carter (Amandla Stenberg), uma garota que mora no subúrbio dos Estados Unidos e que vê sua família ser envolta por violência. Isso acaba por criar um forte contraste com seu ambiente de estudos, uma escola da elite, localizada num bairro de classe alta. Ela leva bem essa vida dupla, de diferentes facetas, até que um de seus melhores amigos de infância (Algee Smith) é baleado por um policial na sua frente. E pior: sem motivo algum. É aí que começa a saga da jovem.

Dividida, ela começa a enxergar os amigos da escola -- antes perfeitos -- como pessoas carregadas de racismo, ainda que não percebam. Por esse prisma, ela prefere se manter anônima e não participar do julgamento contra o policial que atirou no amigo. Só que, aos poucos, ela começa a prestar atenção novamente em sua comunidade, dominada pelo tráfico de King (Anthony Mackie), e que faz seu pai (Russell Hornsby), sua mãe (Regina Hall) e seus dois irmãos (Lamar Johnson e TJ Wright) sofrerem com medo e ameaças.

A partir dessa interessante e pouco explorada premissa, ainda que real e frequente, o cineasta George Tillman Jr. (diretor de alguns episódios de This is Us), junto da roteiro de Audrey Wells (Quatro Vidas de um Cachorro), contam uma história complexa, e extremamente forte, sem meias-palavras. O tom adolescente, que tanto deve despertar atenção no início, fica de lado para uma trama de injustiças sociais ao estilo de Mississipi em Chamas e do recente Detroit em Rebelião. Difícil não sentir raiva e um certo desespero com algumas sequências que passam os personagens. É forte e real.

No entanto, não é só a história a boa direção, quase documental, que contribuem para esse clima. As atuações também estão na medida. Amandla Stenberg mostra que amadureceu muito desde outras produções de sua filmografia, como Tudo e Todas as Coisas e o péssimo Mentes Sombrias. Está mais solta, mais segura de si, e impressiona nas cenas dramáticas. Capaz que abocanhe uma vaga no Oscar. A família dela também dá suporte para as boas cenas. Principalmente Russel Hornsby (Um Limite Entre Nós), um furacão na tela. Que ator! Wright (MacGyver) e Hall (Viagem das Garotas) estão bem.

Aspectos técnicos, ainda que pouco originais, também dão suporte para Tillman Jr. construir as cenas com mais precisão e domínio. O drama, dessa maneira, é dosada de maneira a não ficar piegas ou forçado, como o já citado Detroit em Rebelião, por exemplo, faz bem. O choro deve correr livre, as sensações devem ser as mais variadas possíveis. Difícil se conter. Vale ressaltar, também, que há uma subtrama envolvendo as amigas da escola de Starr que, inicialmente, parecia fraca e apática, mas que vai ganhando uma força surpreendente. Acaba se tornando a cereja de um bolo muito bom.

A conclusão, ainda que mais açucarada que todo o restante da história, pode parecer deslocada e artificial num primeiro momento. Mas, de certa forma, é um inteligente recurso de Wells e de Angie Thomas, a autora original, para mostrar algumas outras possibilidades de vida. Da maneira que o filme foi produzido e conduzido, difícil terminar de outra maneira. E as lágrimas, novamente, não devem se conter, aparecendo à público. Afinal, mais do que um filme de injustiças, racismo e causas sociais, O Ódio que Você Semeia é um filme de identidade, de busca por si mesmo. E, ao subir os créditos, continua a dúvida: é um faroeste ou um filme adolescente? Difícil responder.

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